Da colmeia ao campo: entenda como a saúde das abelhas sustenta a produtividade agrícola

Manual de Doenças das Abelhas, do MAPA, orienta agricultores e apicultores na adoção de boas práticas para garantir saúde de polinizadores.

As abelhas são seres fundamentais para o desenvolvimento e para a produtividade agrícola e o serviço de polinização está diretamente relacionado à saúde delas. Colônias enfraquecidas apresentam redução na capacidade de forrageamento – ou seja, na busca por recursos florais –, e sua atuação polinizadora em campo. Além disso, quando debilitadas, abelhas perdem capacidade de carga, de operação ativa e eficiência do serviço que desempenham no ecossistema. Como consequência, podem ocorrer perdas tanto na biodiversidade, quanto na produtividade agrícola.

Com o objetivo de fortalecer as cadeias produtivas da apicultura e da meliponicultura, por meio de ações de defesa sanitária animal que assegurem a saúde dos enxames e, consequentemente, agricultores assegurarem sua produtividade, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) lançou, em 2023, o “Manual de Doenças das Abelhas”, material orientativo gratuito e digital. “O Manual também traz benefícios indiretos à agricultura, uma vez que as abelhas são responsáveis pela polinização de cerca de 70% das culturas agrícolas, contribuindo com produtividade vegetal e segurança alimentar”, afirma Luciana Guirelli Ábrego, chefe do Núcleo de Sanidade das Abelhas do MAPA.

Manual de Doenças das Abelhas: ferramenta estratégica para o campo 

A publicação reúne informações sobre as principais doenças que afetam as abelhas, incluindo diferentes parasitoses e vírus, além de abordar sintomas de intoxicação e a ocorrência de plantas prejudiciais à saúde desses polinizadores. O documento apresenta também um panorama abrangente sobre a cadeia produtiva, aspectos relacionados à biologia, fisiologia e organização social das abelhas, e orientações sobre materiais e equipamentos utilizados na atividade. Com o crescimento do setor agrícola, a produtividade associada aos polinizadores é de extrema relevância, destaca a servidora do MAPA. 

[Olho] “A presença de abelhas saudáveis no cenário agrícola está associada a uma produção mais responsável, e seu valor para a agricultura foi estimado por pesquisadores em cerca de US$ 43 bilhões, considerando apenas as culturas com informações disponíveis sobre área plantada e grau de dependência da polinização”, Luciana Guirelli Ábrego, chefe do Núcleo de Sanidade das Abelhas do MAPA.

Doenças e sinais de alerta: o que observar nas colmeias 

Entre as principais doenças listadas estão aquelas que afetam as abelhas nas fases de larva e pupa, como a cria pútrida europeia, a cria pútrida americana, a cria giz e a cria ensacada; bem como enfermidades que acometem as abelhas adultas, como a nosemose (causada por fungos) e a varroose (associada ao ácaro Varroa destructor). Infecções provocadas por diferentes vírus e outros ácaros também são citadas. O doutor em Zootecnia e apicultor, Heber Luiz Pereira, explica que a nosemose já foi associada a perdas expressivas em Santa Catarina e que a varroose é a doença que mais causa prejuízo em escala global, não apenas debilitando as abelhas, mas também atuando como vetor de vírus. No Brasil, no entanto, sua gravidade é menor, com índices de infestação que geralmente não ultrapassam 5%, em grande parte devido ao comportamento higiênico das abelhas africanizadas.

Segundo Heber, embora cada doença apresente sintomas específicos, há sinais gerais que devem servir de alerta para apicultores e meliponicultores, como:

  • movimentação anormal e presença de sujidades na entrada da colmeia;
  • presença de abelhas mortas e restos de crias sendo descartados para fora da colmeia;
  • redução da população;
  • queda na produção;
  • respingos de fezes (diarreia) no entorno da colmeia;
  • falha nas crias, com larvas em posições anormais, coloração alterada (amarelada);
  • abelhas com asas disjuntas.

Além disso, o apicultor destaca a importância de boas práticas de manejo, como manter o apiário limpo, evitar a permanência de colmeias vazias ou com restos de favos, realizar a substituição periódica da cera e desinfetar adequadamente os materiais utilizados. “Essas medidas ajudam a prevenir o acúmulo de resíduos e esporos de microrganismos, além de reduzir a atração de besouros e outras pragas”, pontua. 

O Manual de Doenças das Abelhas recomenda que a ocorrência de sintomas incomuns, suspeitas de doenças ou mortalidade de abelhas seja prontamente notificada ao serviço estadual de defesa sanitária animal, juntamente com o isolamento das colônias afetadas. Após a notificação, são adotados os procedimentos oficiais de investigação, incluindo a coleta de amostras por médico-veterinário habilitado e o encaminhamento para laboratórios oficiais ou credenciados, responsáveis pela análise e diagnóstico.

Boas práticas agrícolas e apícolas: caminhos para fortalecer os polinizadores 

Fatores ambientais, como as mudanças climáticas, os sistemas produtivos, a disponibilidade de alimentos e o manejo das colmeias exercem influência direta sobre o comprometimento do sistema imunológico dos insetos, sua saúde e a incidência de enfermidades. Nesse sentido, a adoção de boas práticas agrícolas é fundamental para a sanidade dos polinizadores. “Sem uma alimentação equilibrada, elas ficam mais vulneráveis. A disponibilidade de recursos nutricionais está diretamente relacionada à saúde, à resistência e à imunidade das abelhas. Para manter comportamentos essenciais, como  comportamento higiênico, elas precisam estar saudáveis e com energia”, destaca Heber Pereira.

Práticas como a rotação e a diversificação de culturas, a manutenção de vegetação nativa nas bordas das lavouras e a adoção de sistemas integrados, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF), contribuem diretamente para o fortalecimento desses insetos. Na utilização de pulverizações, por exemplo, o controle e regulagem de equipamentos, além do respeito ao período de floração, reduzem exposição direta e auxiliam a evitar distúrbios metabólicos indesejados. De acordo com Luciana Ábrego, o fornecimento de alimentação artificial e a troca anual de rainhas se somam às ferramentas para a manutenção de enxames e controle de doenças. 

Fortalecer a sanidade das abelhas é, ao mesmo tempo, uma estratégia produtiva, ambiental e de segurança alimentar. Ao integrar boas práticas agrícolas e apícolas, ampliar o monitoramento sanitário e avançar em marcos regulatórios mais robustos, criamos bases para sistemas produtivos mais resilientes e sustentáveis. Nesse contexto, iniciativas como o Manual de Doenças das Abelhas reforçam a importância de uma atuação coordenada entre produtores, técnicos e instituições, reconhecendo que a saúde dos polinizadores é um elo essencial entre a biodiversidade e a produtividade no campo. 

Polinizadores

Diante de um novo contexto que exige mais eficiência produtiva e integração entre sustentabilidade e agricultura, o setor incorpora a agenda de polinizadores à estrutura da CropLife Brasil.  

Como parte importante dessa iniciativa, a entidade lançou o Painel de Polinizadores no CropData, com a disponibilização do Atlas da Apicultura brasileira. A ferramenta reúne indicadores de estabelecimentos, número de colmeias, produção de mel e comércio exterior, oferecendo dados oficiais e confiáveis para promover a integração entre polinizadores e sistemas produtivos.

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