Polinizadores e agricultura: o futuro da produção sustentável passa pelas boas práticas agrícolas

Em um cenário de desafios socioambientais, a proteção dos polinizadores se consolida como parte estratégica da agricultura brasileira.

A agenda de proteção e conservação dos polinizadores vem ganhando destaque na agricultura brasileira. Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas, pela necessidade de ampliar a produtividade e pelas crescentes exigências socioambientais dos mercados internacionais, as Boas Práticas Agrícolas (BPAs), que inclui a convivência entre agricultura e apicultura, tornam-se cada vez mais estratégicas para o futuro do agronegócio. 

Para o coordenador de Sustentabilidade da CropLife Brasil, Pedro Duarte, falar de polinizadores, é falar de resiliência produtiva, segurança alimentar e acesso a mercados. “O produtor rural está cada vez mais inserido em cadeias globais que demandam comprovação de sustentabilidade, rastreabilidade e adoção de boas práticas. A conservação dos polinizadores deixa de ser um tema paralelo e passa a integrar a estratégia produtiva da agricultura moderna”, afirma. 

Polinizadores: seres estratégicos para o Brasil 

A importância dos polinizadores para a agricultura e para a segurança alimentar é reconhecida pela ciência: relatórios da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) indicam que cerca de 75% das culturas agrícolas do mundo dependem, em algum grau, da polinização animal, enquanto os cultivos associados a esse serviço ecossistêmico representam aproximadamente 35% da produção global de alimentos. 

No Brasil, a ação dos polinizadores ganha dimensões ainda maiores, porque além de ocupar uma posição de destaque entre os principais produtores e exportadores agrícolas do planeta, o país abriga uma das maiores diversidades de abelhas do mundo, reflexo da riqueza dos biomas e ecossistemas brasileiros. Estimativas apontam a existência de aproximadamente 2.500 a 3.000 espécies de abelhas no território nacional, incluindo centenas de espécies nativas sem ferrão, muitas delas endêmicas e fundamentais para a manutenção da biodiversidade e da produção agrícola. 

Estudos também mostram que mais de 60% das culturas plantadas no país dependem ou se beneficiam da polinização realizada principalmente por abelhas, enquanto cerca de 30% do valor anual da produção agrícola dessas culturas está associado à ação dos polinizadores. Seus impactos vão além do aumento da produtividade, eles influenciam a qualidade dos frutos, a uniformidade das colheitas, a estabilidade produtiva e o valor comercial das culturas, fatores cada vez mais relevantes em mercados atentos a critérios ESG e rastreabilidade socioambiental.

Em um contexto de eventos climáticos extremos e crescente pressão sobre os sistemas produtivos, conservar ambientes favoráveis aos polinizadores também significa fortalecer a capacidade de adaptação da agricultura e ampliar a resiliência das paisagens agrícolas.

Boas práticas agrícolas e convivência no campo  

A ciência comprova que paisagens agrícolas mais biodiversas tendem a sustentar populações mais saudáveis de polinizadores, fortalecendo serviços ecossistêmicos essenciais para a produtividade, a sustentabilidade e a resiliência dos sistemas agrícolas.

A manutenção de vegetação nativa, o manejo adequado da flora espontânea, a diversificação de culturas, a oferta de recursos florais ao longo do ano, a disponibilização de água limpa e o fortalecimento da comunicação entre agricultores e apicultores, especialmente durante aplicações fitossanitárias, são algumas práticas consideradas fundamentais para a conservação dos polinizadores.

Ciência regulatória, tecnologia e inovação elevam a segurança 

Os avanços da ciência regulatória, da tecnologia e da inovação ampliam a segurança no desenvolvimento e no uso de defensivos agrícolas, além de incorporar critérios cada vez mais robustos para a proteção dos polinizadores. A evolução regulatória brasileira é um exemplo desse processo. Desde a publicação da Instrução Normativa nº 02/2017 do IBAMA, o Brasil passou a adotar uma abordagem moderna de Avaliação de Risco Ambiental (ARA) para polinizadores, alinhada a referências internacionais como USEPA, OECD e FAO.

O modelo brasileiro utiliza avaliações em fases sucessivas, iniciando por cenários altamente conservadores de exposição e avançando para análises mais refinadas quando necessário. Também incorpora fatores adicionais de segurança para proteger a biodiversidade de abelhas brasileiras e considera não apenas mortalidade aguda, mas ainda efeitos crônicos, impactos larvais, resíduos em pólen e néctar e possíveis efeitos sobre as colônias.

Esse progresso, acompanha a própria evolução tecnológica do setor, que vem investindo em moléculas mais modernas, recomendações de uso mais precisas, ferramentas de aplicação mais eficientes e programas de capacitação voltados à adoção de Boas Práticas Agrícolas no campo. 

“Existe uma percepção equivocada de que produtividade e conservação caminham em direções opostas. O que observamos hoje é justamente o contrário: inovação, tecnologia e sustentabilidade estão cada vez mais integradas. O desenvolvimento de defensivos agrícolas modernos vem acompanhado de critérios regulatórios mais robustos, avaliações de risco mais sofisticadas e orientações de uso cada vez mais alinhadas à proteção dos polinizadores”, destaca Pedro Duarte.

O futuro da agricultura passa pelos polinizadores 

De acordo com Pedro Duarte, o avanço dessa agenda depende da combinação entre ciência, capacitação, inovação e construção coletiva entre os diferentes atores do agro. Ele ainda afirma que a convivência entre agricultura e polinizadores não deve ser vista apenas como um compromisso ambiental, mas como parte da própria sustentabilidade econômica da produção. 

“O futuro da agricultura passa pela capacidade de produzir mais, com menor impacto e maior eficiência. Isso exige diálogo, transferência de conhecimento e implementação de práticas que façam sentido dentro da realidade do produtor”, conclui.

Nesse contexto, a incorporação mais direta da agenda de polinizadores pela CropLife Brasil, ampliando o legado técnico-científico construído pela A.B.E.L.H.A., representa um movimento voltado a conectar ciência, manejo responsável e aplicabilidade no campo. A proposta é ampliar as iniciativas e aproximar produtores, assistência técnica, pesquisadores e cadeias produtivas de uma agenda prática de sustentabilidade agrícola. 

A consolidação dessa agenda também reforça uma transformação mais ampla no setor agrícola, em que produtividade, conservação da biodiversidade, adaptação climática e acesso a mercados passam a caminhar de forma cada vez mais integrada. Nesse cenário, valorizar os polinizadores significa investir na resiliência dos sistemas produtivos, na segurança alimentar e na competitividade da agricultura brasileira no longo prazo.

Fontes consultadas

BPBES – Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. Relatório temático sobre polinização, polinizadores e produção de alimentos no Brasil. São Carlos: BPBES, 2019. Disponível em: BPBES – Relatório temático sobre polinização, polinizadores e produção de alimentos no Brasil. Acesso em: 10 maio 2026.

BRASIL. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Instrução Normativa nº 2, de 9 de fevereiro de 2017. Estabelece procedimentos para avaliação de risco ambiental de agrotóxicos para abelhas. Brasília, DF: IBAMA, 2017. Disponível em: IBAMA – Instrução Normativa nº 2/2017. Acesso em: 13 maio 2026.

GIANNINI, Tereza Cristina. O valor econômico do serviço de polinização de alguns cultivos brasileiros. In: BPBES. Agricultura e polinizadores. São Carlos: BPBES, 2019.

NOGUEIRA, David Silva et al. As abelhas “sem-ferrão” dos biomas brasileiros: o Brasil possui a maior biodiversidade de abelhas “sem-ferrão” do planeta, essenciais para o funcionamento dos ecossistemas e com grande potencial econômico. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 75, n. 4, out./dez. 2023. 

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