Paisagens diversificadas, oferta contínua de recursos florais e manejo adequado são determinantes para a atratividade das lavouras às abelhas e para ampliar a produtividade com sustentabilidade.
A produção de alimentos está diretamente conectada a processos naturais muitas vezes invisíveis a olho nu. Entre eles, a polinização se destaca como um dos serviços ecossistêmicos mais importantes para a agricultura e para a manutenção da biodiversidade.
É por meio desse processo que ocorre a reprodução da maioria das espécies vegetais, viabilizando a formação de frutos e sementes e contribuindo diretamente para a diversidade de cultivares. Além disso, a polinização está associada a ganhos expressivos em qualidade, como tamanho, peso e uniformidade dos frutos e, em produtividade agrícola.
Diante desses benefícios, aliados ao seu papel estratégico na sustentabilidade dos sistemas produtivos, a polinização pode ser compreendida como um verdadeiro bioinsumo da agricultura, um recurso natural indispensável para garantir eficiência produtiva e equilíbrio ambiental.
Mas o que torna uma lavoura mais ou menos atrativa para as abelhas e outros polinizadores? A resposta está diretamente ligada à diversidade e à qualidade da paisagem agrícola. “A atratividade depende da heterogeneidade espacial. Precisamos de diferentes recursos em paisagens diversas, que combinem fragmentos nativos, cultivos variados e áreas de pousio”, explica Juliana Hipólito, pesquisadora do Instituto Nacional da Mata Atlântica.

Nesse contexto, a disponibilidade, a variedade e a qualidade dos recursos nutricionais são fatores determinantes para a presença de abelhas no campo. Ambientes que oferecem oferta contínua e diversificada de flores tendem a sustentar populações mais estáveis e saudáveis de polinizadores.
“O grau de atratividade de uma lavoura é definido pela abundância e qualidade dos recursos florais (néctar e pólen), aliadas a uma infraestrutura que contemple fontes de água limpa, sombreamento e condições adequadas de acesso, além, primordialmente, da segurança sanitária no manejo agrícola”, complementa Sérgio Farias, presidente da Confederação Brasileira de Apicultura e Meliponicultura.

Assim, mais do que a cultura em si, é o conjunto da paisagem e das práticas de manejo que define o nível de atratividade para os polinizadores e, consequentemente, o potencial de contribuição desses organismos para a produtividade e a sustentabilidade dos sistemas agrícolas.
O que é polinização e por que ela é essencial?
A polinização é o processo de transferência de pólen entre as flores, permitindo a fecundação e, consequentemente, a formação de frutos e sementes. Esse processo pode ocorrer por diferentes agentes — como o vento, a água ou animais —, sendo as abelhas protagonistas entre os polinizadores em sistemas agrícolas.
Segundo Juliana Hipólito, a morfologia floral é um fator determinante para a atratividade e a interação com diferentes espécies de polinizadores. “Flores mais fechadas e profundas favorecem abelhas com línguas mais longas, enquanto flores abertas e mais expostas tendem a atender melhor visitantes generalistas. Há, ainda, flores com estruturas mais complexas, como as do tomate, que só liberam o pólen mediante vibração — um comportamento que apenas algumas espécies de abelhas conseguem realizar ao vibrar o abdômen para coletar o pólen.”
Na prática, a polinização é o que garante a reprodução de grande parte das plantas cultivadas. Sem esse processo, a produção agrícola seria severamente comprometida, tanto em quantidade quanto em qualidade. Estima-se que cerca de 75% das culturas agrícolas dependem, em maior ou menor grau, da polinização, podendo ocorrer perdas de até 100% em cultivos altamente dependentes na ausência de polinizadores.
Além de impactar diretamente a produtividade, a polinização também influencia atributos essenciais como o tamanho, a qualidade e a uniformidade dos frutos, bem como a viabilidade econômica das culturas. Trata-se, portanto, de um fator central para a segurança alimentar e para a sustentabilidade dos sistemas produtivos.
Nem todas as culturas são iguais: diferentes níveis de dependência da polinização
Um dos pontos mais importantes — e ainda pouco compreendido — é que as culturas agrícolas não dependem da polinização da mesma forma. O conceito de dependência de polinização está diretamente relacionado ao quanto um cultivo necessita desse processo para atingir seu pleno potencial produtivo, não apenas em quantidade, mas também em qualidade.
Segundo Juliana Hipólito, essa variação está associada ao sistema reprodutivo de cada espécie vegetal. “O grau de dependência da polinização varia de acordo com o sistema reprodutivo de cada planta. Existem espécies que dependem de animais polinizadores, outras em que a polinização ocorre por diferentes agentes, como o vento, e ainda há aquelas que praticamente não dependem desse processo — embora sejam uma minoria.”
Essa diversidade de estratégias reprodutivas explica por que o papel dos polinizadores varia entre as culturas, mas também reforça sua relevância para a agricultura como um todo. De acordo com a Plataforma Intergovernamental de Serviços Ecossistêmicos e Biodiversidade (IPBES), culturas dependentes da polinização animal, incluindo as realizadas por abelhas, respondem por cerca de 35% do volume global de produção de alimentos, representando entre 5% e 8% do valor total da produção agrícola mundial.
Esses dados evidenciam que, embora nem todas as culturas dependem diretamente da polinização, uma parcela significativa da produção de alimentos e do valor econômico da agricultura está diretamente associada à atividade dos polinizadores.
Culturas dependentes de polinização
Culturas dependentes de polinização necessitam diretamente da ação de polinizadores para produzir frutos ou sementes.
- Sem polinização: perdas de 40% a 100%
- Exemplos: frutas, hortaliças, oleaginosas
Nesses sistemas, a presença de abelhas é essencial para viabilizar a produção.
Culturas beneficiadas pela polinização
Não dependem totalmente, mas apresentam ganhos importantes com a presença de polinizadores.
- Sem polinização: perdas de 10% a 40%
- Impactos positivos incluem:
- maior produtividade
- melhor qualidade dos grãos ou frutos
- maior uniformidade
A soja é um exemplo clássico: não depende diretamente, mas pode ter ganhos relevantes com a polinização.
Culturas não dependentes de polinização animal
São culturas que não dependem da ação de abelhas ou outros organismos polinizadores, pois utilizam outros mecanismos.
- Polinização pelo vento (anemofilia)
- Autofecundação
- Reprodução sem fertilização (apomixia, partenocarpia)
Exemplos incluem cereais como milho e trigo.

O papel das abelhas: protagonistas da polinização
Entre os diversos agentes polinizadores, as abelhas se destacam por sua elevada eficiência e grau de especialização. Ao visitarem flores em busca de alimento, promovem a transferência de pólen entre plantas, viabilizando a fecundação e contribuindo diretamente para a produção agrícola.
Mais do que isso, seu papel extrapola os limites da lavoura. As abelhas são essenciais para a:
- manutenção da biodiversidade
- regeneração de ecossistemas
- estabilidade dos sistemas agrícolas
No contexto produtivo, avanços recentes têm contribuído para fortalecer a integração entre agricultura e apicultura. “Historicamente, a falta de conhecimento sobre os ganhos produtivos gerados pela polinização criou lacunas de diálogo, mas esse cenário tem evoluído com a adoção de tecnologias de precisão. Plataformas de georreferenciamento permitem ao agricultor e ao apicultor compartilhar calendários de tratamento de safras e a localização de apiários, transformando potenciais conflitos em uma parceria técnica estratégica”, avalia Sérgio Farias.
Esse movimento reforça uma mudança importante: de uma relação baseada em riscos potenciais para uma abordagem colaborativa, em que a presença das abelhas passa a ser reconhecida como um ativo produtivo — essencial para a sustentabilidade e a eficiência dos sistemas agrícolas.

O que torna uma cultura atrativa para as abelhas?
Nem todas as plantas são igualmente atrativas para as abelhas. A presença desses polinizadores em uma área está diretamente relacionada à oferta, diversidade e qualidade dos recursos florais disponíveis. Em outras palavras, nem toda flor presente na paisagem, seja em ambientes naturais ou agrícolas, oferece os elementos necessários para sustentar uma dieta equilibrada e atrativa para as abelhas.
As flores, por sua vez, evoluíram diferentes estratégias para atrair polinizadores. Segundo Juliana Hipólito, essas estratégias estão ligadas às características das chamadas recompensas florais. “Existem plantas que produzem pólen altamente proteico, néctar com maior concentração de açúcares e diferentes composições nutricionais, além de sinais químicos e visuais, como fragrâncias, cores e até emissão de luz ultravioleta.”
Para as abelhas, a diversidade desses recursos é essencial. Dietas baseadas em uma única fonte floral (monoflorais) não são recomendadas, pois podem gerar deficiências nutricionais, comprometer o desenvolvimento das colônias e aumentar a vulnerabilidade a doenças e parasitas.
No seu processo de forrageamento, as abelhas buscam diferentes tipos de recursos, cada um com funções específicas:
- Néctar: principal fonte de energia, rico em carboidratos
- Pólen: fonte essencial de proteínas para o desenvolvimento da colônia
- Resinas e óleos: utilizados na produção de própolis e na manutenção da estrutura e proteção da colmeia
Assim, a atratividade de uma cultura não depende apenas da espécie cultivada, mas da capacidade do sistema produtivo de oferecer uma combinação equilibrada e contínua desses recursos, reforçando a importância da diversidade floral e do manejo integrado da paisagem agrícola.
Paisagem agrícola e comportamento das abelhas
A atratividade de uma lavoura não depende apenas da cultura em si, mas do contexto da paisagem ao seu redor. Áreas com maior diversidade de plantas tendem a atrair mais polinizadores, sustentar colmeias mais saudáveis e aumentar a resiliência dos sistemas produtivos.
Segundo a pesquisadora Juliana Hipólito, paisagens mais complexas favorecem a manutenção da diversidade de abelhas e ampliam sua contribuição para a polinização. “Áreas naturais, como corredores ecológicos e bordas de vegetação nativa, formam um mosaico de recursos que sustenta as abelhas ao longo do ano.” A pesquisadora também destaca que práticas como a redução do revolvimento do solo favorecem a disponibilidade de locais de nidificação, um fator diretamente relacionado à presença desses polinizadores.
Outro elemento fundamental é a área de forrageamento, o espaço onde as abelhas buscam alimento, que pode se estender por até 2 km, dependendo da espécie. Em paisagens homogêneas, como grandes monoculturas, as abelhas são frequentemente obrigadas a percorrer distâncias maiores em busca de recursos diversificados. Esse aumento no esforço energético pode reduzir a eficiência do forrageamento e impactar negativamente a saúde das colônias.
Nesse contexto, práticas de manejo da paisagem tornam-se decisivas. Sérgio Farias alerta que a remoção total da vegetação nativa e de plantas espontâneas nas bordaduras elimina importantes fontes complementares de alimento. “A criação dos chamados ‘desertos verdes’ — grandes extensões de monocultura sem oferta de água ou diversidade floral ao longo do ano — afasta os polinizadores e compromete sua permanência na área.”
Por fim, o monitoramento do comportamento das abelhas pode oferecer indicadores relevantes sobre a qualidade do ambiente. A intensidade de visitação às flores é um sinal inicial da disponibilidade de recursos, mas, como ressalta Farias, a avaliação mais precisa deve ser feita em conjunto com apicultores, considerando parâmetros como ganho de peso das colmeias, acúmulo de mel e desenvolvimento das crias, todos diretamente relacionados ao estado nutricional e à saúde do ecossistema.

Boas Práticas, Comunicação e Integração
A adoção de práticas agrícolas amigáveis às abelhas, aliada ao fortalecimento da comunicação entre agricultores e apicultores, desponta como uma estratégia de baixo custo e alto impacto para conciliar conservação da biodiversidade e produtividade no campo.
De acordo com Juliana Hipólito, ações como a restauração de áreas de vegetação nativa, a manutenção da flora espontânea (quando não há competição com a cultura), a redução do revolvimento do solo para preservar locais de nidificação, a diversificação de culturas, o manejo criterioso de defensivos e a provisão de fontes de água limpa são fundamentais para promover ambientes mais favoráveis aos polinizadores.
“A presença de polinizadores torna os sistemas agrícolas mais resilientes às variações climáticas, contribuindo para sua estabilidade ao longo do tempo — o que também se traduz em retorno econômico para o produtor. É fundamental dar visibilidade a casos reais de produtores que adotaram práticas amigáveis e obtiveram resultados concretos, além de ampliar sua participação em pesquisas”, destaca a pesquisadora.
Complementando essa visão, Sérgio Farias ressalta que a integração entre produção agrícola e conservação começa pelo cumprimento da legislação ambiental, especialmente no que se refere às Áreas de Preservação Permanente (APP) e às Reservas Legais (RL). Do ponto de vista produtivo, ele aponta o uso de plantas de cobertura com potencial melífero — como crotalária, nabo forrageiro e girassol — durante o período de pousio como uma prática que, além de melhorar a fertilidade do solo e auxiliar no controle de plantas daninhas, garante oferta contínua de alimento para as abelhas, transformando um manejo tradicional em um serviço ecossistêmico estratégico.
Entre as Boas Práticas Agrícolas, o Manejo Integrado de Pragas (MIP) se destaca pelo seu impacto positivo tanto para a produção quanto para os polinizadores. A recomendação é que a aplicação de defensivos ocorra apenas quando os níveis de dano econômico forem atingidos, priorizando produtos mais seletivos e realizando pulverizações em períodos de menor atividade das abelhas, como no final da tarde ou à noite.
Outra prática relevante é a sincronia de manejo entre agricultores e apicultores. A introdução das colmeias deve ocorrer quando a lavoura atinge entre 10% e 20% de floração, sendo retiradas antes do declínio floral ou do início de operações como a dessecação. Essa coordenação garante maior eficiência na polinização cruzada e contribui para a saúde e vitalidade dos enxames.
Em conjunto, essas práticas evidenciam que a integração entre agricultura e polinizadores não depende apenas de grandes investimentos, mas sobretudo de planejamento, conhecimento e articulação — transformando desafios em oportunidades para sistemas produtivos mais sustentáveis e eficientes.
Fontes consultadas
BPBES – Plataforma Brasileira de Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos. Relatório temático sobre polinização, polinizadores e produção de alimentos no Brasil. São Carlos: BPBES, 2019. Disponível em: https://www.bpbes.net.br/wp-content/uploads/2019/03/BPBES_CompletoPolinizacao-2.pdf. Acesso em 27 de abril de 2026.
GIANNINI, Tereza Cristina. O valor econômico do serviço de polinização de alguns cultivos brasileiros. In: BPBES. Agricultura e polinizadores. São Carlos: BPBES, 2019.
GIANNINI, Tereza Cristina et al. Unveiling the contribution of bee pollinators to Brazilian crops with implications for bee management. Apidologie, v. 51, p. 406–421, 2020. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.1007/s13592-019-00727-3