[Artigo] Pirataria de sementes: um risco adicional para a agricultura brasileira e gaúcha

Catharina Pires, diretora de Biotecnologia e Germoplasma da CropLife Brasil (CLB)

Publicado no Gaúcha Zero Hora

As enchentes de 2024, maior catástrofe climática da história recente do Rio Grande do Sul (RS), destruíram 110,3 mil hectares de soja e impactaram mais de 48 mil produtores de grãos, reduzindo a safra em 2,71 milhões de toneladas, cerca de 12,2% da produção estimada para o estado, segundo dados do Ipea e governo local. Os gaúchos conhecem bem o peso de uma safra perdida. 

Por isso, riscos evitáveis precisam ser eliminados, e a pirataria de sementes é um deles. No Brasil, cerca de 11% do mercado de sementes de soja é de origem ilegal, com prejuízos de R$ 10 bilhões ao ano, segundo estudo da Consultoria Céleres/ CropLife Brasil. No RS, o índice chega a 28% da área plantada, quase o triplo da média nacional. O quadro é ainda mais preocupante porque o Estado enfrenta estiagens, excesso hídrico, doenças e variações de temperatura. 

A semente é o ponto de partida da produtividade agrícola. Na soja, ela carrega o potencial genético da planta e anos de pesquisa e desenvolvimento, testes em campo, controle de qualidade, rastreabilidade e tecnologia. O uso de insumos ilíicitos não oferece nenhuma dessas garantias e compromete a produtividade, a segurança fitossanitária, a inovação e a sustentabilidade da agricultura.

A pirataria adiciona risco a um sistema pressionado por clima, custos, crédito, seguro rural, logística e volatilidade de preços. Produzido a margem da lei, o material não tem garantia fisiológica, nem documento fiscal. Também não remunera a cadeia de produção de sementes, desestimulando investimentos em P&D, melhoramento genético e biotecnologia. Na lavoura, compromete o desenvolvimento, reduz o vigor e aumenta a exposição a pragas e plantas daninhas. 

Combater a pirataria de sementes é defender a propriedade intelectual, proteger a eficiência produtiva, a renda do agricultor, a sanidade da lavoura e a capacidade do Brasil de continuar inovando em agricultura tropical. No RS, onde o campo já enfrenta grandes desafios, proteger a legalidade é também defender a recuperação, a competitividade e o futuro do agro gaúcho.

*Catharina Eugênia Pires é graduada em Direito e Ciência Política, com mestrado pela Universidade de Brasília (UnB) e MBA pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Possui mais de 25 anos de uma sólida carreira profissional dedicada às relações públicas, com passagens pelo Ministério da Integração Nacional e Confederação Nacional da Indústria (CNI). Nos últimos 20 anos atuou em multinacionais agrícolas (Monsanto, Bayer e Nutrien), tendo assumido posições de diretoria nas áreas de Relações Institucionais, Comunicação e Sustentabilidade. Atualmente, é diretora de Biotecnologia e Germoplasma na CropLife Brasil. 

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