Evento promovido pelo Insper Agro Global reuniu representantes do setor para discutir caraterísticas, riscos e estratégias de enfrentamento ao crime.

O painel acadêmico “Ilícitos no Agro Brasileiro”, realizado na última quarta-feira (11), em São Paulo, trouxe ao debate o envolvimento do crime organizado transnacional com as cadeias do agronegócio. O evento, promovido pelo Insper Agro Global (Global Agrobusiness Center) – núcleo especializado da instituição, reuniu representantes de órgãos público, indústria e academia para refletir e discutir características, riscos e estratégias de enfrentamento à ilegalidade que impacta o setor agrícola nacional. Cerca de 280 pessoas entre autoridades, policiais, advogados criminalistas, pesquisadores, estudantes e especialistas compuseram o encontro híbrido (presencial e online).
A programação contou abertura institucional do coordenador do núcleo de agro da faculdade, Marcos Jank. Em seguida, o Policy Fellow do Insper Agro Global e Coordenador do Grupo de Análise de Estratégia em Defesa, Segurança e Inteligência (DSI) da Escola de Segurança Multidimensional (ESEM/USP), Alberto Pfeifer, apresentou estudo acadêmico no tema, denominado “Crime Transnacional no Agro (CTA) – A infiltração do crime organizado e a matriz de risco no agronegócio brasileiro”. A pesquisa mostrou a mudança de paradigma ocorrida no campo na última década e como o agro se tornou fronteira de capital ilícito. Além disso, explicou os domínios das principais organizações criminosas do Brasil e dividiu com o público as formas de atuação ilegal, entre elas contrabando, falsificação/adulteração, roubo, grilagem, crimes ambientais, extorsão e lavagem de gado, seja com insumos agrícolas e empreendimento rurais, seja agroindústria.

Na sequência, uma mesa de debate trouxe explanações dos elos da cadeia produtiva sobre o mercado ilegal no agro, os desafios enfrentados com a concorrência desleal e as atuais formas de enfrentamento ao crime. Participaram deste espaço o promotor de justiça do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) núcleo Franca-SP, Adriano Mellega; o professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e coordenador da ESEM, Leandro Piquet; e o gerente de Combate a Produtor Ilegais na CropLife Brasil, Nilto Mendes. A mediação ficou por conta do jornalista, repórter especial e colunista do Estadão especializado em segurança pública e defesa, Marcelo Godoy
“Acredito que uma das primeiras vítimas a perceber este crime e ter acendido sinal de alerta foi a indústria. As empresas, reunidas em nossa entidade, percebendo que havia um contexto mais amplo de atuação ilícita, tendo um panorama, se propôs a estruturar atividades dentro do nosso alcance. Entendemos que esse era um assunto relevante e que precisávamos endereçar. Neste diagnóstico, criamos um Comitê com especialistas experts da indústria, para alertar as autoridades e auxiliar no mapeamento de onde isso [o crime] está acontecendo em maior e menor grau”, destacou Nilto Mendes.
Além disso, o gerente conectou o fato aos trabalhos de recebimento de denúncias, encaminhamento, destinação de produtos e fomento às boas práticas realizado pela CLB.

Já Adriano, do GAECO, dividiu as impressões do ponto de vista das forças de segurança. “O grande desafio ao longo destes anos foi a questão de integração. A Lei 12.850/13, que dispõe de normativas para investigação ao crime organizado, já trazia a importância deste diálogo, incentivando a cooperação e integração entre instituições, autoridades e a iniciativa privada. Só que nunca tinha sido feita no âmbito do agro, de forma estruturada. De lá para cá, com apoio da indústria e de associações como a CropLife, fomos aprimorando cada vez mais a mobilização e atuação. De modo que hoje se tornou uma simbiose, que tem trazido retorno e reflexo positivo neste combate”, destacou.
Ao fim, Leandro Piquet, pela academia, exibiu como o mercado ilegal tem avançado de forma sistêmica e metodológica. “São núcleos que se especializam em funções e isso nos traz um conceito muito importante: o de “crime como serviço” – que tem sido uma discussão muito forte na área. O que é isso? É aquele [crime] em que há uma pessoa que abre a empresa, uma gráfica que faz a impressão, outro que recolhe os vasilhames e faz a reutilização no processo de falsificação. Então são vários negócios, que se conectam em um grande mercado”. O professor da ESEM/USP destacou, ao fim, que um dos avanços recentes tem sido as forças de segurança, como o GAECO, explorarem tais conceitos do ponto de vista prático de acusação, reprimindo participantes da cadeia prestadores de serviço, do contágio e da operação conjunta.
Enfrentamento
O combate ao mercado ilegal agrícola é compromisso permanente da CropLife Brasil, que realiza mobilização conjunta com os atores da cadeia produtiva. Entre as ações, a entidade, em parceria com a ESEM/USP, promove o “Programa de Formação no Combate aos Mercados Ilícitos de Insumos Agrícolas” – que inicia a sua 5ª turma em 2026 – para capacitação de profissionais no reconhecimento, apreensão, manuseio, fiscalização e investigação destes produtos.