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Arroz dourado é liberado para cultivo nas Filipinas

Alimentos biofortificados ainda não são tão comuns na dieta das pessoas. Mas, podem aumentar a disponibilidade de nutrientes essenciais à saúde humana. 

Uma vez que, no último relatório da ONU sobre fome no mundo, divulgado em julho, apontou que, em 2020, 30% da população global – ou 2,3 bilhões de pessoas – não puderam pagar por uma alimentação saudável e em quantidade suficiente. 

O número se torna ainda mais dramático quando observamos a questão da desnutrição infantil. De acordo com o relatório, mais de 149 milhões de crianças menores de 5 anos sofriam de desnutrição crônica e outras 45 milhões apresentavam desnutrição aguda no ano passado.

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Enfrentar esse problema é mais do que um desafio, é uma necessidade. Por isso, pesquisadores do mundo todo vêm se debruçando sobre o tema. 

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O desenvolvimento de alimentos biofortificados está entre as estratégias apontadas pela ciência para combater a fome e a desnutrição. Através do melhoramento genético de plantas, convencional ou empregando ferramentas da biotecnologia, os pesquisadores vêm agregando nutrientes a alimentos básicos.

É o caso do Arroz Dourado, desenvolvido pelos cientistas alemães Ingo Potrykus e Peter Beyer, no final dos anos 90. O objetivo dos pesquisadores sempre foi humanitário: combater a deficiência de vitamina A, um problema grave em países asiáticos como as Filipinas, Bangladesh e Vietnã, onde o arroz é a base da alimentação. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), meio milhão de crianças ficam cegas a cada ano em função da carência de vitamina A e outras 100 mil morrem por falta desse nutriente.

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E o arroz é um alimento fundamental nesses países, o que fica muito evidente numa comparação com o Brasil. Aqui, mesmo que o grão faça parte das principais refeições, cada brasileiro consome em média 34 kg de arroz por ano. Em Bangladesh, por exemplo, a média é de 170 kg por pessoa.

Nesse sentido, o arroz é colocado como um importante alimento a ser biofortificado com nutrientes, deficientes, na população desses países. Disponibilizar vitamina A pelo consumo de arroz é uma estratégia que deve salvar muitas vidas. 

Apesar desse objetivo ter sido alcançado há quase duas décadas, a liberação para cultivo comercial do arroz dourado só foi acontecer recentemente, em julho de 2021 nas Filipinas

A CLB conversou com Ingo Potrikus, um dos pesquisadores do Arroz Dourado e pioneiro no desenvolvimento de alimentos biofortificados. Confira a entrevista e descubra uma pouco mais sobre a importância da biotecnologia na entrega de plantas mais nutritivas. 

Entrevista Ingo Potrykus - alimentos biofortificados

O senhor é um dos pioneiros no desenvolvimento de alimentos biofortificados. Qual a importância desses super alimentos hoje?

Eu não os chamo de “super alimentos”. Para mim, o termo aprimorado com vitaminas, ou aprimorado com minerais, se encaixa melhor e está correto. Como a deficiência de micronutrientes é um dos maiores problemas na segurança alimentar, afetando cerca de 2,5 bilhões de pessoas no mundo, a biofortificação é uma ferramenta eficaz e importante, especialmente, para as populações mais pobres e vulneráveis.

A primeira geração do Arroz Dourado mostrou que era possível produzir pró-vitamina A em grãos de arroz, mas sabíamos que para combater a deficiência de vitamina A seriam necessários níveis mais elevados de β-caroteno (betacaroteno). Como a ciência superou esse desafio?

A “primeira geração” conhecida como GR1 (golden rice 1) não foi tão ruim. Como sabemos agora, com um pouco de melhoramento genético das plantas seria possível atingir o nível desejado. No entanto, naquela época, queríamos muito mais e, por isso, exploramos qual fonte vegetal do gene fitoeno sintase (psy1) teria o melhor efeito. Encontramos melhores resultados (acúmulo de β-caroteno) quando utilizarmos o gene psy1 presente no genoma de plantas de milho.

A principal diferença entre o evento GR1 e a “segunda geração” do arroz dourado (GR2) é a origem do gene psy. No GR1 utilizamos o gene presente no genoma de uma planta conhecida como narciso (Narcissus pseudonarcissus) e no GR2 utilizamos a sequência genética do gene psy presente no genoma do milho (Zea mays).

A troca na sequência genética do gene psy fez com que o GR2 acumulasse 31 μg/g de β-caroteno. Enquanto, oevento GR1 era capaz de acumular 1,6 μg/g de β-caroteno.

A cultura mantém as características introduzidas após longos períodos após a colheita?

A cultura manteve a característica, no entanto – como acontece com todas as plantas – há uma diminuição na quantidade de pró-vitamina A após a colheita. Isso não afeta a eficácia porque todos os cálculos são baseados em valores tomados 3 meses após a colheita. E a maior parte do arroz, em populações de baixa renda, é consumida 6 meses após a colheita.

Como a edição gênica pode contribuir para o desenvolvimento de super alimentos? O senhor acredita que essa tecnologia poderia acelerar os processos de desenvolvimento e aprovação?

Não tenho certeza de como a “edição de genes” pode contribuir para alimentos biofortificados. A edição de genes é uma tecnologia típica de “perda de função” e para biofortificação precisamos de abordagens de “ganho de função”. No entanto, promover essa tecnologia pode tornar a regulamentação de produtos, desenvolvidos por meio da biotecnologia, menos restritiva e fazer entregas mais rápidas à sociedade.

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