Em cenário de ausência de controle fitossanitário, seriam necessários 33,5 milhões de hectares adicionais para compensar perdas de produção da commodity, alerta.
O manejo adequado de pragas, doenças e plantas daninhas na soja reduz pressão e poupa abertura de novas áreas agrícolas, é o que conclui estudo inédito da Universidade Federal de Viçosa (UFV). Em um cenário de ausência de controle fitossanitário, a produção poderia cair até 70% e prejudicar a oferta. Para compensar as perdas e manter o volume produzido, seriam necessários 33,5 milhões de hectares adicionais de cultivo, uma área equivalente ao tamanho de Goiás.
Segundo pesquisa, sem medidas de controle, o rendimento poderia cair de 72 para 32 sacas por hectare, o que exigiria uma área maior para produzir a mesma quantidade. Essa relação traduz o chamado efeito “poupa-terra”: quanto maior o rendimento, menor a superfície necessária para obter determinado volume, mantidas as demais condições. O dado representa a área necessária para compensar perdas no cenário simulado, e não uma previsão de expansão agrícola.
Atualmente, mais de 60% da produção nacional de soja é destinada à exportação, o que torna a sua produtividade relevante e estratégica. A estimativa reforça a importância das tecnologias de proteção das lavouras e das boas práticas, especialmente na agricultura tropical, onde o calor e a umidade tornam o controle um desafio durante todo o ano. Os dados integram a primeira fase do estudo “Impactos da ocorrência de pragas, doenças e plantas daninhas na produtividade de culturas agrícolas no Brasil”.
“A agricultura brasileira construiu sua competitividade ao transformar ciência em soluções adaptadas às condições tropicais. Biotecnologia, genética, bioinsumos e defensivos, integrados ao manejo correto e às boas práticas, ampliam as ferramentas do produtor para proteger cada hectare e produzir mais com os recursos que já tem. Eventual prejuízo na lavoura e quebra, pode se traduzir em maior necessidade de terra para equalizar oferta e demanda”, alerta a presidente da CropLife Brasil, Ana Paula Repezza.
Do controle parcial ao ótimo, ganho pode chegar a 20 sacas por hectare
A pesquisa avaliou quatro doenças, cinco pragas e nove plantas daninhas, com 10 mil simulações por estado. Foram consideradas três situações: ausência de controle, controle parcial e controle ótimo. Nos dois últimos cenários, o modelo adota reduções de 40% e 80%, respectivamente, dos danos que ocorreriam sem intervenção.
As perdas médias simuladas em relação à produção potencial foram de 121,3 milhões de toneladas na ausência de controle, 72,8 milhões no controle parcial e 24,3 milhões no controle ótimo. A comparação entre os dois níveis de manejo mostra que elevar a redução dos danos de 40% para 80% pode representar um ganho estimado de aproximadamente 20 sacas por hectare.
Os resultados evidenciam como a eficácia das estratégias adotadas influencia o aproveitamento das terras já cultivadas.
Diferentes tecnologias compõem a estratégia de manejo
Na agricultura tropical, a combinação de temperatura, umidade e diversidade climática favorece a ocorrência de pragas, doenças e plantas daninhas ao longo do ciclo agrícola. Enfrentar esses desafios exige monitoramento, orientação técnica e soluções adequadas às características de cada lavoura.
A biotecnologia e o melhoramento genético permitem desenvolver plantas com características de interesse agronômico. Os bioinsumos aliados aos defensivos agrícolas oferecem ferramentas para controlar organismos que comprometem a produção.
Esses recursos, associados às práticas agronômicas, compõem as estratégias de Manejo Integrado de Pragas (MIP), que combina monitoramento, conhecimento técnico e diferentes métodos de controle para orientar as decisões no campo.
Diferença nas exportações pode alcançar US$ 17,6 bilhões por safra
Além dos efeitos sobre a produtividade e o uso da terra, o estudo da UFV estimou as consequências econômicas das perdas. No cenário de controle ótimo, a receita brasileira simulada com exportações de soja chega a US$ 44,2 bilhões. Sem controle, recua para US$ 26,6 bilhões, uma diferença potencial de US$ 17,6 bilhões por safra.
O impacto se estende a uma cadeia que abastece os mercados de alimentos, óleo e combustível. Por exemplo: 1 tonelada de soja fornece 780 kg de farelo para a alimentação animal, 220 litros de óleo de soja para alimentos, indústria e energia, e 230 litros de biodiesel, a partir do óleo. Proteger o rendimento das lavouras contribui, assim, para a oferta de matérias-primas, a geração de valor e a segurança do abastecimento.
Metodologia
O Projeto de Pesquisa “Impactos da ocorrência de pragas, doenças e plantas daninhas na produtividade de culturas agrícolas no Brasil – Cultura da Soja” da UFV, desenvolvido em cooperação técnico-científica com a CropLife Brasil, combinou dados oficiais de produção, informações sobre a ocorrência de agentes bióticos e modelos de dano fundamentados na literatura científica, complementados por simulações estocásticas dos impactos sobre a produtividade e suas repercussões econômicas.
O estudo contou com participação de pesquisadores das áreas de Fitopatologia, Entomologia e Herbologia. Formalizada em setembro de 2025, a parceria UFV e CLB prevê estudos sobre diferentes culturas de importância para a agricultura brasileira.


