Em entrevista à CropLife Brasil, diretora compartilha trajetória e destaca como o projeto Pacto Brasil fortalece a cultura organizacional e a transparência nas empresas.

No ambiente de negócios, a ética empresarial é um dos pilares que sustentam um espaço social saudável e profissional. Nesse sentido, há mais de 10 anos, a Controladoria-Geral da União (CGU) desenvolveu o Pró-Ética, iniciativa que avalia os programas organizacionais e práticas de integridade de empresas públicas e privadas, com o objetivo de prevenir corrupções, fraudes e violações. Na busca pela democratização da cultura organizacional e acesso a temática, a CGU criou o Pacto Brasil, projeto que contempla empresas de todos os perfis e portes, em estruturação nessa agenda.
Servidora há duas décadas no órgão, Cristine Kohler tem dedicado sua carreira a promover práticas de ética e compliance nos setores público/privado e liderar iniciativas que buscam o desenvolvimento empresarial íntegro. Com passagens por áreas como corregedoria, auditoria e acordos de leniência, hoje ocupa a posição de Diretora de Promoção e Avaliação de Integridade Privada, atuando na disseminação do assunto no âmbito nacional e no fomento do tema pela CGU.
Em entrevista ping-pong exclusiva à CropLife Brasil, Cristine detalhou o processo de desenvolvimento do Pacto Brasil e as expectativas para o futuro do projeto. A advogada destacou como a adoção de medidas anticorrupção, de compliance e de responsabilidade socioambiental contribuem para a estruturação de negócios íntegros e fortalecem o ecossistema empresarial.

Trajetória
Cristine participando do Lançamento do Edital do programa Empresa Pró-Ética-25. Foto: Kenzo Suzuki/ Ascom – CGU
1 – Por gentileza, Cristine, gostaria que me contasse um pouco da sua história. Como você chegou aos trabalhos de integridade, sobretudo à CGU? De que forma passou a se conectar com empresas do agronegócio? Quem é Cristine Köhler?’
“Bom, falando um pouco antes de entrar na Controladoria, atuei durante quatro anos como advogada corporativa em empresas. Minha formação é jurídica e, desde 2006, sou auditora federal na CGU.
Quando ingressei, iniciei trabalhando na área de corregedoria, onde permaneci por alguns anos. Nesse período, fui corregedora do Ministério da Cultura e do Ministério do Esporte — na época, as corregedorias setoriais ainda estavam concentradas na CGU. Fiquei nessa área até 2015. Depois, assumi, na Controladoria Regional do Paraná, um núcleo de auditoria e fiscalização, fazendo a transição da corregedoria para uma atuação mais voltada à auditoria e fiscalização. A CGU possui diferentes áreas que funcionam como cabeças de sistema, e essa experiência ampliou bastante minha visão.
Após esse período voltei a atuar em Brasília, ainda que de forma descentralizada, passando a trabalhar com acordos de leniência. Essa já é uma área com interface direta com empresas, em que há negociação a partir de reportes voluntários sobre suas irregularidades. Atuei como chefe de coordenação de negociação e monitoramento desses acordos, o que me aproximou do tema da integridade.
Em janeiro de 2023, passei a atuar diretamente nesta última área, assumindo a coordenação de promoção e avaliação de integridade privada. É uma área voltada ao fomento de empresas e da sociedade na conscientização sobre medidas de integridade e compliance, sua importância, além do desenvolvimento de guias, manuais e outras ferramentas. Fiquei neste posto até o ano seguinte. Em 2024, fui convidada a assumir a Diretoria de Promoção e Avaliação de Integridade Privada, onde estou atualmente.
É uma área de incentivo, uma área de conscientização. Nas áreas de corregedoria e auditoria, a atuação é mais repressiva. Nos acordos de leniência, há um caráter mais negocial. Já na área de promoção da integridade, o foco é o incentivo — não há poder de coerção ou sanção, mas sim um trabalho de orientação e sensibilização das empresas. Estamos no papel de conscientizar, pegar na mão das empresas e levá-las conosco. É uma virada de chave em termos de mapa mental (…) de escuta, de entender os problemas que as empresas enfrentam.
Vou confessar que eu gosto demais do meu trabalho. Sempre digo que é um trabalho de formiguinha, sabe? Um exemplo claro é quando uma empresa se candidata ao Pró-Ética, não obtém a premiação inicialmente, implementa melhorias e, em uma nova candidatura, conquista o reconhecimento. Você vê que realmente pode contribuir. Ainda que a empresa seja a principal responsável, a gente consegue contribuir para que ela faça essa evolução, trilhe esse caminho de amadurecimento e de conhecimento, e evolua as suas medidas e práticas de integridade.”

“As empresas passam a entender suas fragilidades e transformam esse diagnóstico em metas concretas de evolução”
Cristine Kohler
2 – Quais são os principais objetivos do Pacto Brasil e por que ele foi criado pela CGU? Que tipo de empresas ou entidades podem aderir e como ele funciona na prática? Você fez parte da construção?
“Sim, participei da construção do Pacto Brasil, e foi uma experiência muito interessante. Para explicar melhor, vale dar um passo atrás e falar do Pró-Ética, que é um programa já consolidado da CGU. Ele funciona como uma espécie de estandarte de ouro [padrão alto] em integridade: as empresas se candidatam e submetem seus programas para uma avaliação bastante rigorosa. Quando atendem a todos os critérios, são reconhecidas como referência em integridade e compliance. Isso serve como um parâmetro também para o mercado. São empresas com programas exemplares, passíveis de serem replicados e fomentados para outras que gostariam de chegar nesse patamar.
Muito bem. O ponto é que, pela nossa experiência, o Pró-Ética acaba sendo mais acessível a empresas grandes, com estruturas sólidas e programas com nível de maturidade avançado. A partir de 2023, começamos a olhar com mais atenção para outras empresas que também querem evoluir, mas que ainda não têm esse nível de maturidade — seja porque tentaram e não conseguiram a premiação, seja porque ainda não se sentem preparadas para se candidatar. Além disso, muitas não têm capacidade financeira para estruturar um programa completo de integridade, que de fato é custoso.
Foi nesse contexto que começamos a desenvolver o Pacto Brasil, inspirado no Pró-Ética, com uma proposta mais inclusiva. A ideia foi adaptar esse referencial para contemplar empresas e entidades de todos os portes, que estejam dispostas a avançar nessa agenda. Nessa linha, então, criamos um instrumento de autoavaliação: um questionário acompanhado de um guia, que permite que cada organização analise suas próprias práticas de integridade.
“Estamos no papel de conscientizar, pegar na mão das empresas e levá-las conosco.”
Cristine Kohler
A lógica é simples: a empresa preenche o questionário, recebe uma pontuação e, a partir disso, consegue identificar onde está bem e onde precisa melhorar, seja em canais de denúncia, códigos de conduta, políticas anticorrupção ou outros aspectos. A CGU não faz essa avaliação, justamente para deixar a empresa mais à vontade. O objetivo é oferecer um norte, um caminho de evolução. Inclusive, o Pacto Brasil funciona como uma etapa preparatória para o Pró-Ética.
A gente vê o Pacto Brasil como um projeto de democratização do acesso a políticas de integridade. Por quê? Porque através do pacto uma empresa consegue inclusive montar o seu programa de integridade. Qualquer empresa ou entidade privada pode aderir, sem limite de participantes, e utilizar as ferramentas para desenvolver ou aprimorar seu programa. Existe um painel público com os nomes dos aderentes e a informação sobre quem realizou ou não a autoavaliação, que pode ser divulgada ou mantida privada, a critério da empresa. Hoje, já são 810 aderentes ao Pacto Brasil.

A CGU se compromete a não utilizar as informações que são inseridas no âmbito do Pacto, salvo, especificamente, quando a empresa opta por usar sua pontuação como critério de desempate em licitações, o que funciona como um incentivo adicional. Nesse caso, sim, está sujeita a nossa auditoria no âmbito do processo de contratação. Fora isso, não existe qualquer auditoria ou monitoramento por parte da CGU dentro do projeto do Pacto Brasil.
Hoje são mais de oitocentas, mas entendemos que temos muito espaço de crescimento ainda. O nosso objetivo principal também não é quantitativo, é qualitativo.
Também vemos grandes empresas aderindo como forma de dar o exemplo e influenciar suas cadeias de fornecedores. Isso reforça o caráter coletivo da iniciativa. O Pacto Brasil foi lançado no início de 2024 e conta com o apoio de diversas instituições, como federações, associações e entidades que ajudam a disseminar essa agenda.
Ao fim de 2023, nós conseguimos formatar tudo isso e lançamos o Pacto no início de 2024. É interessante que a primeira entidade a aderir foi um escritório de advocacia, porque os escritórios de advocacia podem e devem aderir, tanto para as suas medidas internas, quanto para orientar seus clientes empresariais. Esse ano iremos completar dois anos e contamos com o apoio de diversas instituições, como federações, associações e entidades que ajudam a disseminar essa agenda. Hoje temos 102 apoiadores institucionais, que são justamente essas instituições que vêm para apoiar o projeto, para disseminar perante o seu público-alvo.
O Pró-Ética é regulamentado através de uma portaria pela CGU. Ele acontece a cada dois anos, com um processo de avaliação bastante detalhado. Atualmente, temos mais de 260 empresas em análise, e a divulgação das premiadas ocorre em evento público. Apenas as empresas aprovadas são divulgadas, o que preserva o sigilo das demais.”
3 – De que forma a iniciativa fortalece a cultura de integridade no ambiente de negócios brasileiro? Pode destacar um exemplo?
“Ótimo. É bem interessante você trazer isso. Nós estamos, neste momento, fazendo um mapeamento mais estruturado para reunir exemplos concretos – sem citar em nomes – mas já é possível observar como essas iniciativas fortalecem a cultura de integridade no ambiente de negócios
No âmbito do Pro-Ética, há vários relatos de empresas que, em uma primeira edição, tinham a expectativa de conquistar a premiação e não conseguiram. Empresas que passaram por esse processo, recebem uma devolutiva detalhada, levaram o diagnóstico para a alta administração com as pontuações e a indicação dos pontos que precisam ser aprimorados. Após, pleitearam uma segunda vez e ganharam o selo.
Isso permite que ela entenda exatamente onde estão suas fragilidades, sempre num processo de evolução. Isso é muito interessante. Você vê que elas colocam como meta, porque sabem da repercussão em relação à reputação. E os técnicos, os compliance officers, veem como uma oportunidade para implementar todas as melhorias que entendem como relevantes e pertinentes.
Já o Pacto Brasil é uma iniciativa mais recente, com cerca de dois anos. Hoje, estamos em um momento de qualificação do Pacto. Mesmo assim, já vemos sinais positivos. Um exemplo é o engajamento de associações de classe que querem estimular — ou até exigir. Falam assim: “Nós queremos que o Pacto Brasil seja requisito para todos os nossos associados entrarem como associados na nossa empresa”. Olhando por outro lado, dizem: “Como é que a CGU pode ajudar e como a gente pode ajudar?”
Como nós estamos no processo de construir com alguns parceiros, com alguns apoiadores institucionais, essa qualificação para os seus associados. Ou seja, de que forma, na prática, aquele associado pode evoluir no âmbito do Pacto Brasil, seja aderindo em um nível inicial, seja com os degraus que ele precisa subir para aprimorar e aperfeiçoar o seu programa. Essa tem sido uma experiência muito interessante. Mas, por outro lado, a gente tem que criar condições para as empresas, para que elas saibam o caminho das pedras, digamos assim.
O cenário é bastante diverso. Há setores com empresas já em nível avançado de maturidade, mas também há muitos que ainda estão no início dessa jornada, que precisam caminhar muito ainda, sabe? É nessa linha que a gente vê, como case do Pacto Brasil, a importância de ter esse acompanhamento mais de perto, essa oportunidade que as empresas têm de crescer e de aperfeiçoar os seus programas.”

4 – Hoje, com a vigência, como o Pacto Brasil pode contribuir para reduzir a probabilidade de fraudes e outras irregularidades no país?
“A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), por exemplo, que é uma organização que atua em diversas frentes, inclusive de integridade, de compliance e de anticorrupção, reconheceu o Pacto Brasil como uma iniciativa inédita e valorosa para as empresas que querem iniciar ou aperfeiçoar a sua jornada de integridade.
Além disso, em fevereiro, nós lançamos um Guia de Boas Práticas de Integridade para Empresas Exportadoras, concebido através de discussões com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Nós trouxemos ali os principais insights, as red flags [sinais de alerta], os principais riscos e as medidas de mitigação no âmbito de um programa de integridade para as empresas que exportam. É um novo material, referencial técnico nosso, em que muitas das medidas que a gente prevê ali estão dentro do Pacto Brasil.
Hoje, o Pacto Brasil é um programa que algumas grandes empresas já veem como um potencial para ser exigido de seus fornecedores, ou seja, a gente tem uma reverberação externa para quem deseja atuar com integridade e adotar medidas mínimas. Porque aí toda cadeia se fortalece. E a nossa busca é justamente pelo mercado como um todo. Um mercado negocial mais ético, mais transparente, mais íntegro.
Importante dizer que o pacto já traz algumas medidas e algumas induções em relação à responsabilidade socioambiental e a respeito dos direitos humanos. Nós já quisemos trazer alguns quesitos relacionados a essa temática, ainda que de forma bastante inicial, mas já dando aquele comando assim de que não podemos mais pensar em empresas consideradas éticas ou íntegras, apenas sob a ótica do compliance anticorrupção. Para além do compliance anticorrupção, que é a grande maioria e continua sendo extremamente importante, também tem a importância de empresas socialmente responsáveis, sustentáveis e comprometidas direitos humanos.”
“Como sonho é que a gente tenha um número gigante de empresas, não só aderindo por aderir, mas realmente aplicando o que a gente disponibiliza.”
Cristine Kohler

5 – De que forma o Pacto Brasil pode ser aplicado ao agro, considerando as empresas de P&D em inovação no campo? Como entidades como a CLB podem apoiar ou incentivar seus associados a participarem? Deixo o espaço para você dividir uma última mensagem do Pacto e o que espera para o futuro.
“Acredito que as empresas possam aproveitar a oportunidade de ter esse incentivo da CGU, essa disponibilização de um questionário de autoavaliação das suas medidas de integridade, um referencial técnico para que elas possam ou iniciar, aperfeiçoar ou consolidar o seu programa de integridade. Então, deixo o convite para que conheçam o Pacto Brasil, porque realmente é um programa acessível, em que desenvolvemos instrumentos e ferramentas, para que seja aplicado no processo de autoavaliação e para que tenha resultado prático. Ou seja, é uma oportunidade que as empresas têm de forma gratuita, sem qualquer nível de cobrança.
E nesse sentido, tivemos um depoimento de compliance officer e a palavra final dele me marcou muito, porque ele disse assim: “aproveitem que o Brasil possui essas medidas de fomento gratuitas, porque na grande maioria dos países o poder público chega perto das empresas para punir, quando o problema já está instaurado. É difícil a gente encontrar iniciativas e programas governamentais que venham para fomentar, para esclarecer, elucidar e tentar auxiliar as empresas”. Isso faz diferença. É essa a mensagem que deixo.
“É raro encontrar iniciativas públicas que se aproximem das empresas para orientar e desenvolver, e não apenas punir”
Cristine Kohler
Em termos de futuro – e acho que até como sonho – a expectativa é ter muitas empresas dentro do Pacto Brasil, quer um programa rodando por si só, porque hoje, o nosso nível de esforço é bastante grande em levar a palavra do que ele propõe. Hoje, através dos apoiadores institucionais, entrevistas, de palestras e tudo mais, ele já teve uma curva de conhecimento externo bastante acentuada em pouco tempo, mas temos muito para crescer ainda. Se a gente vê o potencial que existe de empresas e que não tem qualquer ônus para essa empresa que faz a adesão, então como sonho é que a gente tenha um número gigante de empresas. Não só aderindo por aderir, mas realmente aplicando o que a gente disponibiliza.
A gente já fala sobre política pública mesmo e vemos que esse movimento já acompanha uma tendência mais ampla. Tivemos um passo grande, vimos com muita alegria, que é a inserção da exigência de programas de integridade nas contratações de grande vulto, que veio na Lei de Licitações (nº 14.133). Ali, a gente já vê uma sinalização de que a existência de programas de integridade é um caminho sem volta. Então, cada vez mais tende a se constituir como uma política pública.”
Perfil

Cristine Kohler Ganzenmuller é auditora federal e atua como Diretora de Promoção e Avaliação de Integridade Privada na Controladoria-Geral da União. No órgão, teve passagens pelas áreas de corregedoria, auditoria e fiscalização.
Graduada em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR), a advogada tem MBA em Direito Econômico e Empresarial pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).