Encontros discutem como as condições brasileiras, aliadas à tecnologia agrícola, podem abrir novas oportunidades no agro mundial

Do desafio da agricultura tropical à oportunidade de se tornar líder global pela inovação e tecnologia aplicada no campo. É este o cenário e vantagem competitiva que só o Brasil tem. As discussões sobre o modelo produtivo do país e a ciência embarcada foram capitaneadas pela CropLife Brasil no Global Agribusiness Festival (GAFFFF) 2026, nesta sexta-feira (2), em São Paulo, em painéis de discussão. Ao lado de representantes da cadeia produtiva, a entidade discutiu como as condições brasileiras, aliadas às soluções agrícolas adaptadas e à escala industrial, podem abrir novas oportunidades de negócios no mundo. Entre outros temas estratégicos para o desenvolvimento do setor, também estiveram em pauta o ambiente regulatório e a diplomacia.
Agricultura Tropical – pesquisa, produção e regulação

A habilidade de produzir respeitando as condições naturais do território foi possível por meio de investimentos em ciência, tecnologia e inovação. O arcabouço regulatório brasileiro também é essencial para garantir êxito na produção. Mas como contar isso e se fazer reconhecido? No painel “Do desafio à liderança: o que é que só o Brasil tem?”, mediado pela presidente da CropLife Brasil, Ana Repezza, lideranças debateram como contar isso e se fazer reconhecido. Produtividade, obstáculos científicos e tecnológicos, regulação e segurança foram assuntos abordados como interdependentes. Para que o país passe a ser reconhecido globalmente, transformar esses aspectos em competitividade se mostra fundamental.
“A agricultura tropical brasileira é resultado de décadas de pesquisa, adaptação, investimento e conhecimento acumulado no campo. E isso nos coloca diante de uma oportunidade que vai além de exportar commodities e alimentos. Podemos exportar conhecimento, tecnologia, genética, soluções de manejo e modelos produtivos adaptados aos trópicos. Se queremos que ela seja reconhecida, não basta dizer que o Brasil produz bem. Precisamos mostrar por que produzimos bem e levar segurança ao mercado internacional de que somos um país relevante para negociar tecnologia”, sintetizou Repezza.

Presente no painel, o pesquisador e assessor da Presidência da Embrapa, Aryeverton de Oliveira, recapitulou a trajetória do Brasil nos últimos 40 anos e destacou como dados, modelagem de risco e informações agroclimáticas apoiaram decisões relacionadas à produção nacional. “Nós temos dados que asseguram que aquele selo, aquele certificado de cada produto, passa por um controle. Temos que parar de esperar que alguém venha aqui nos dizer o que fazer e passar a dizer o que pode ser feito. Temos uma agricultura tropical, um processo diferenciado. (…) Somos um país com uma história recente, mas temos coisas interessantes por aqui. O nosso setor, o agro, foi muito eficiente na adoção de tecnologias e nas nossas políticas. Não tem mais espaço só para discurso vago e conversa. Precisamos demonstrar que nossa ciência e nossos dados saem do paper e chegam ao Estado”, declarou o cientista.

Em complemento, a sócia-proprietária da Lina Frutas, diretora ESG da Abrafrutas e board member da Global Women Fresh, Priscilla Nasrallah, apresentou a perspectiva do produtor e as preocupações dos compradores no exterior. “O cliente está mais atento à rastreabilidade, qualidade e segurança do produto. E a nossa expertise em agricultura tropical consegue entrar em lugares que outros países não conseguem”, afirmou. Já pela perspectiva do governo, a assessora da Secretaria-Executiva do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), Andrea Claudia Parrilla, destacou a evolução do ambiente regulatório brasileiro e seus indicadores, além de apontar legislações que ainda demandam avanços em regulamentação e segurança jurídica para estimular investimentos no país. “O Brasil não só produz, ele desenvolve tecnologia. Estamos em outra fase”, afirmou.
Bioinsumos e Fertilizantes – integração e sustentabilidade

Já no eixo de tecnologias agrícolas, a segurança alternativa diante de tensões comerciais e a integração no manejo foram as reflexões obtidas em outro debate do dia. O assunto foi abordado no painel “Fertilizantes, Bioinsumos e Biológicos – Segurança, inovação e sustentabilidade”, onde especialistas comentaram a dependência externa de fertilizantes e a necessidade de ampliar alternativas capazes de fortalecer a produção nacional e aumentar a eficiência no uso de nutrientes.
Mediadora do encontro, a diretora de Bioinsumos da CropLife Brasil, Amália Borsari, destacou que o Brasil é uma potência agrícola, mas ainda possui dependência externa de insumos essenciais. “Talvez a pergunta já não seja simplesmente ‘como substituir o que importamos?’, mas ‘como transformar esse desafio em uma oportunidade para desenvolver soluções próprias e construir uma agricultura ainda mais eficiente, tecnológica e competitiva?’”, afirmou. A discussão também abordou novas fontes de nutrientes, economia circular e o avanço dos biológicos como plataforma de inovação.

Outro ponto central do debate foi a construção de um ambiente regulatório capaz de acompanhar a velocidade da inovação, com segurança jurídica, previsibilidade e base científica. “Falamos aqui de segurança de suprimento, produção nacional, investimentos e inovação. Para que tudo isso chegue de fato ao produtor, existe uma variável transversal: o ambiente regulatório. No caso dos bioinsumos, o Brasil está justamente em uma etapa decisiva dessa construção setorial”, explicou Amália. “O desafio agora é transformar as convergências em torno da proposta de regulação em discussão em uma regulamentação que combine ciência, segurança, previsibilidade e capacidade de acompanhar a velocidade da inovação”, acrescentou.

Também participaram do painel, o diretor executivo da ANDA, Ricardo Tortorella; o diretor de Operações da Agrion Fertilizantes Vinícius Monteiro; e a líder de Biológicos da Corteva Agriscience, Tainá Sipos.
Biotecnologia – simetria regulatória
Outro encontro relevante na agenda foi o painel “Desafios regulatórios internacionais associados à biotecnologia”, ocorrido durante a manhã. Na ocasião, os participantes discorreram sobre os ambientes regulatórios de países como Argentina, EUA e China – importantes parceiros comerciais do Brasil – e quais os entraves no entendimento comum dos países no âmbito da segurança dos produtos e as consequências de assimetrias, seja para o mercado, seja para o produtor.
A fundadora da Biofocus Hub, membro do Conselho Consultivo do Pacto Global da ONU no Brasil e consultora da CropLife Brasil, Adriana Brondani, reforçou o quanto o Brasil possui dados e pesquisas que mostram a sua biossegurança, amparados no trabalho integrado entre academia, indústria e órgãos reguladores. Entretanto, o benefício da tecnologia e as questões de percepção não chegam a quem não está próximo da agricultura. Segundo ela, existem três pontos principais que estão associados a esse fator: a distância, a preocupação com as entregas e as assincronias entre diferentes países.

Para além disso, o país também conta com produtores ávidos por inovação, que pedem esse retorno de tecnologias e demandam entregas eficientes. Contudo, destacou que é preciso compartilhar informações e trabalhar ao máximo para que assincronias reduzam. “É um setor que envolve ciência, indústria e academia e que faz entregas tão bem-sucedidas, que os produtores pedem tecnologia para quem desenvolveu. E quando alguém está pedindo essa tecnologia, é de extremo valor que ela seja reconhecida e preservada para continuar evoluindo para responder a sua pergunta. Essa ação envolve todo o nosso arcabouço regulatório, os dados gerados, que podem ser compartilhados para intensificar essa troca de experiência regulatória entre o Brasil e os outros países. (…) Temos que compartilhar informações e trabalhar ao máximo para que essas assincronias diminuam, e esse é um trabalho que precisa de todos os elos da cadeia, aproveitando a relação positiva e diplomática do Brasil”, apresentou.
Além da consultora, participaram o presidente da Abramilho e membro do Conselho de Administração da Aliança Internacional das Associações de Produtores e Exportadores de Milho da Argentina, do Brasil e dos EUA (MAIZALL), Paulo Bertolini; o agricultor e membro do Conselho da MAIZALL, Manuel Ron; e o diretor de Políticas Comerciais do U.S. Grains & BioProducts Council. Andrew Brandt. A condução ficou por conta do diretor-executivo da MAIZALL, Benno van der Laan.
GAFFFF – diferentes elos do agronegócio
Criado pela DATAGRO, o GAFFFF 2026 realizou à sua terceira edição consecutiva em São Paulo, após uma edição inédita em Sorriso (MT), realizada em julho deste ano, que reuniu mais de 15 mil visitantes, 140 palestrantes, mais de 80 horas de conteúdo e uma feira de negócios com mais de 109 marcas. Na capital paulista, a organização espera receber mais de 30 mil participantes nos dias 1º e 2 de outubro. A programação reúne diferentes elos do agronegócio como produtores rurais, empresários, investidores, lideranças, especialistas, startups e representantes de governo.
A proposta do festival combina debates estratégicos, negócios, inovação, tecnologia, cultura, música e gastronomia, indo além do formato tradicional de congresso ou feira. “O objetivo é que o público encontre, em um único ambiente, conhecimento para a tomada de decisão, novas soluções, parceiros e experiências que aproximem o agro de diferentes audiências”, afirma Luiz Felipe Nastari, diretor de Comunicação, da DATAGRO. A edição de 2026 também destaca a importância da pesquisa, do desenvolvimento e da inovação para uma produção agrícola mais sustentável e eficiente, com avanços em áreas como germoplasma, biotecnologia, defensivos e bioinsumos.