Com 43 anos dedicados à Embrapa, pesquisadora é referência mundial em fixação de nitrogênio no solo e avanço dos biológicos no agronegócio

Se o que hoje conhecemos de insumos agrícolas biológicos, técnicas de produção de baixo carbono e agricultura sustentável, sobretudo àquela que garante segurança alimentar a 10% do mundo em que vivemos, muito se deve às pesquisas, ambições e contribuições de uma cientista brasileira: Mariangela Hungria.
Reconhecida internacionalmente pelos trabalhos de fixação de nitrogênio no solo a partir do uso de bioinsumos e pelas mais de 500 publicações científicas na academia, Hungria carrega – para além de toda a inteligência que transborda – uma trajetória marcada por estudo, empoderamento e família.
Hoje, com 43 anos completos dedicados à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a pesquisadora celebra a conquista de ser a primeira mulher brasileira a receber, em 2025, o Prêmio Mundial da Alimentação, o chamado “Nobel da Agricultura”, pela World Food Prize Foundation, e vê o crescimento da tecnologia agrícola avançar ano a ano, com potencial de elevar o uso no campo de 15% para 50%.
Trajetória
A curiosidade científica que levou a então pesquisadora a alcançar o topo começou lá trás, há muitos anos, quando ainda criança o contato com a natureza era ensinado e permeado pela cientista, professora e avó materna. Em entrevista ping-pong especial à CropLife Brasil, Mariangela divide sua história e trabalhos na agricultura.
“Desde que eu me entendo por gente, eu tinha assim essa curiosidade científica”
Mariangela Hungria
1 – Professora, me conta um pouco da sua história. Como você chegou a ser pesquisadora, se esse sonho é de criança ou não, como você se interessou pelos bioinsumos. Quem é Mariangela Hungria?
Eu nasci em São Paulo, capital, mas minha família é do interior. Não sei como minha mãe naquela época conseguiu, porque eu nasci de 8 meses, mas ela tomou o trem para ir de Itapetininga até São Paulo, não sei te dizer como. Voltei para a minha cidade do interior, que é Itapetininga onde vivi. Tive aquela infância bem diferente dos dias de hoje, que a gente brincava muito na rua, era muito solto, tudo. Mas desde que eu me entendo por gente, eu tinha, assim, essa curiosidade científica.
Eu me interessava muito pelas coisas, queria saber como é que funcionavam. Tive muita sorte. Eu tive uma avó e sempre me identifiquei muito com ela, porque ela era da área de ciência, entende? Ela era farmacêutica e bioquímica de formação e estudou para ser professora, naquela época chamava-se de “ciências químicas, físicas e biológicas”. Foi professora em escola estadual da nossa cidade e ela quem descobriu isso [a ciência] em mim.
Eu tinha muita afinidade com ela, sempre me incentivou muito. Lia comigo os livros de ciências dela, fazia experiência comigo no fundo do quintal. Tipo, cobria as folhas das plantas, que daí sem luz ela ficava amarela, não fazia fotossíntese, ou pesava a bexiga para mostrar que o ar tem peso. Foi assim, uma influência bem mágica. Sempre que eu tinha alguma pergunta, de como funcionavam as coisas, eu lembro que as respostas eram “dos ventos”, “da vida no solo” …
O que eu acho incrível assim, sabe, é que minha vó era uma mulher realmente a frente do tempo. Ela tinha um carinho pelo solo e sempre me falava que ali tinha muita vida. O que mudou a minha vida foi ela ter me dado um livro, quando eu tinha 8 anos, que chamava “Caçadores de Micróbios”. Achei fantástica a vida dos microbiologistas. Fiquei apaixonada e falei no dia seguinte para minha avó que eu queria ser uma microbiologista.
Só que eu não queria a vida deles [microbiologistas], a maioria a vida era relacionada à microbiologia médica. E falei: “não, mas eu nunca gostei de medicina”. Falava: “eu queria alguma coisa assim de natureza, de produzir alimentos”. Porque, desde que eu me conheço por gente, ficava muito chocada quando eu via pessoas passando fome. Algumas pessoas iam lá em casa e minha avó tinha até um kit de prato, talher, copo, que separava e dava comida para as pessoas. Aquilo já me determinou. Então, desde que eu era criança foi isso, queria fazer alguma coisa para produzir alimentos e queria ser uma cientista de microbiologia.
Quando eu fiz 10 anos, minha mãe, meu irmão e eu fomos para São Paulo, voltamos para ter melhor estudo. Estudei em um lugar fantástico, Colégio Rio Branco, com bolsa de estudos, durante sete anos. Minha mãe jamais poderia pagar aquele colégio. Lá foi muito importante para mim e para minha formação, sou eternamente grata e tenho contato com o colégio até hoje. De lá fui fazer Agronomia, porque eu queria essa coisa de produzir alimento.

2 – Como foi no início dos seus estudos e das pesquisas e desenvolvimento na área biológica? Houve resistência? Naquela época já se vislumbrava a adesão de técnicas sustentáveis ou a introdução ocorreu com o tempo, conforme demonstração da inovação da tecnologia?
Aí tem uma coisa engraçada, que naquela época a agronomia era uma “sub carreira”, sabe.
Eu era a primeira aluna do colégio, fui a única lá todos os anos que cursei e os professores não se conformavam, até chamaram minha mãe para falar: “Mas não pode, ela é primeira aluna, ela tem que ir para a medicina. Como que ela vai para essa coisa de agronomia?”. E minha mãe falava: “Ah, não adianta. É isso que ela quer fazer, deixa para lá. Só não quero que ela sofra sendo professora”, já que minha mãe era professora, só que da parte de humanas, de francês. E assim eu fui para a agronomia.
Apesar de ser uma profissão que não era considerada “top”, graças à Deus, as coisas mudaram muito. Eu tenho muito orgulho de ser engenheira agrônoma. Vejo que hoje é uma profissão muito considerada, valorizada e foi muito bom ver essa mudança. Na época, também era majoritariamente masculina e, pior, machista. Podia não ser, mas era muito.
(…) Quando entrei na faculdade, era tudo químico, químico, químico, mas por quê? Porque na década anterior, a gente importava alimento, me lembro disso desde criança. Por exemplo, frutas, maçã era uma coisa, assim, que vinha da Argentina, muito caro. Frango era comida de domingo. Daí, veio Norman Borlaug e Revolução Verde, que, por melhoramento e fertilizantes químicos, conseguiu aumentar muito a produção brasileira (…) inclusive o conceito dele foi que permitiu a expansão para o Cerrado. E todas essas ideias estavam chegando no Brasil.
Não tinha espaço para biológicos. Mas eu tinha dentro de mim, desde criança, que eu queria trabalhar com biológicos na agricultura. Naquela época a gente não tinha bolsas de iniciação científica, o que hoje tem e é uma coisa muito importante. Fiquei grávida por acidente no segundo ano da faculdade, depois no terceiro tive uma outra filha, então tive que trabalhar durante a graduação. Trabalhava na biblioteca, fazia tradução de inglês, fazia serviço de datilografia e consegui economizar um dinheiro.
No último semestre da faculdade, consegui fazer um estágio naquilo que eu queria. Fui ao Centro de Energia Nuclear da Agricultura (CENA), que hoje faz parte da Esalq – mas na época não fazia, procurar a mulher [Dra Alaídes Puppin Ruschel] que trabalhava com isso, de fixação biológica do nitrogênio, que era aquilo que eu queria e que nem existia em uma Esalq. Ela me estimulou a fazer um projeto para mestrado. Eu o fiz e fiquei rezando, porque assim, me formava no final do ano, queria muito continuar estudando.
Meus amigos falavam que era loucura, que eu tinha era que ter um emprego e eu “mas eu quero tanto continuar estudando, tenho tanto para aprender”. Apliquei a bolsa para o FAPESP [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo] e, se não saísse a bolsa, teria de ir para o mercado de trabalho, com duas crianças para sustentar. Mas a bolsa saiu e eu pude fazer o mestrado com a Dra Alaídes, lá no CENA/Esalq e fiz a tese em fixação biológica do nitrogênio.
[Na época] até comecei a fazer as matérias do doutorado, mas havia uma mulher superpoderosa no Brasil, Dra Johanna Döbereiner [cientista tcheca e uma das pioneiras no tema no país], conhecida nacional e internacionalmente, que vivia no Rio de Janeiro. Ela dava “carta” de todos os empregos no país, exceto em São Paulo, onde era o domínio da minha orientadora de mestrado. Elas até tinham trabalhado juntos, mas eu falei: “Não, eu tenho que ir lá com essa mulher”.
Ela [Johanna Döbereiner] me convidou para fazer doutorado lá na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFFRJ), onde hoje é Embrapa Biologia, e fui. Minha orientadora por lá foi a Dra Maria Cristina Prata Neves, com a Dra Johanna como coorientadora. Lá tive uma grande oportunidade, de estar num grupo inteiro que trabalharia com fixação biológica do nitrogênio. Estava muito empolgada. Oito meses depois que eu tinha começado, ela me chamou e falou que tinha uma oportunidade, uma pessoa tinha saído, que queria me contratar. Até falei: “Nossa, Dra Johanna, mas tem tanta gente ali, esperando”. Mas ela disse: “Não, é você que eu quero e pronto”.
“Ela [Johanna Döbereiner] era uma pessoa brilhante e, realmente, acho que eu aprendi a ser cientista com ela”
Mariangela Hungria
(…) Devo muito a Dra Johanna, porque ela foi minha grande mentora científica. Ela era uma pessoa brilhante e, realmente, acho que aprendi a ser cientista com ela. Havia também todo o lado pessoal, que sou muito grata. Na época, eu tinha duas filhas, uma com necessidades especiais, não tinha um parente perto, mas ela viu a minha dedicação, não viu minhas limitações que, com certeza, eu acho que a grande maioria, principalmente se fosse um homem, veria em mim. Então, ela abriu as portas, me contratou na Embrapa [Agrobiologia] em 1º de dezembro de 1982 e estou aqui até hoje.

3 – Considerando o legado de 40 anos dedicados a pesquisas, sobretudo de fixação de nitrogênio no solo pelo uso de bioinsumos, como você avalia o potencial dessa tecnologia para o agronegócio brasileiro até 2030?
Vou até começar um pouco antes.
Quando eu fui da Agrobiologia, fiquei por lá durante 10 anos. Desses dez, três anos e meio fui fazer pós-doutorado no exterior, nos Estados Unidos. Considero que esse período ainda era de formação para mim, sabe, muito do básico. Dra Johanna acreditava muito no avanço do conhecimento. De lá [EUA], entendi que eu tinha que voltar. E foi uma decisão de mãe.
Na época, Seropédica-RJ não tinha muita infraestrutura, minha filha mais velha ia para o ensino médio e minha outra filha, com necessidades especiais, precisava de tratamento médico. Então, pedi transferência para Londrina-PR, que era uma boa cidade e porque não ficava longe dos meus avós, em Itapetininga-SP, onde eu queria ficar perto durante o final da vida deles, visitar sempre. E daí vim para Embrapa Soja, em julho de 1991, quando realmente comecei minha carreira científica e minha vida profissional.
(…) Comecei do zero. Não tinha laboratório, não tinha nada, mas por outro lado, era um lugar que eu podia colocar as minhas ideias. Não tinha grupo, mas eu era chefe de mim mesma, entende?! E foi aí que tive a primeira oportunidade de fazer aquilo que eu realmente acreditava.
A gente falava de biológicos, mas falava numa escala pequena, para uma agricultura orgânica, para uma agricultura familiar. E chegando aqui, falei: “quero trabalhar com a fixação biológica do nitrogênio para altíssimos rendimentos, para grande escala. Porque se funcionar para o grande, vai funcionar para o médio, para o pequeno”. Na época que cheguei aqui, a ideia era assim, uma vez que você introduziu a bactéria em um solo, você não precisa mais fazer nada.
Aqui, cheguei, fui atrás de cooperativas, já que era zero o uso de bioinoculantes, e comecei os experimentos durante dois, três anos, bem intensivo no campo. Vi que você colocando todo ano a bactéria no estado fisiológico, pronta para começar, ela dava um aumento de 8% no rendimento. Saí divulgando para os agricultores e foi um trabalho que nunca parou. Contínuo, todo o ano de uso. Viajamos o Brasil inteiro, região central, para falar dos benefícios da inoculação, da fixação biológica do nitrogênio e esse foi um diferencial do nosso trabalho. É uma coisa meio única da gente, do Brasil, e fomos vendo crescer.
Desde que comecei as palestras dos primeiros resultados, entre 1993 e 1994, vi um crescimento constante todos os anos. Os anos que a gente falava mais, aumentava mais o uso [na soja], e foi indo. Realmente um crescimento que nunca parou. E daí o que que tinha? A soja é uma cultura e uma commodity que as pessoas querem vender, porque é muito bom vender o grão e está em 47 milhões de hectares.
Sempre encontramos muita dificuldade porque o marketing do biológico é muito menor quando você compara com o químico. Houve muita pressão, no caso, em que se falava que altos rendimentos só se conseguia com fertilizantes nitrogenados. Hoje temos mais de 500 experimentos comparando o biológico com nitrogênio fertilizante, em todos os sistemas cultivares que você possa pensar, mostrando que não, que o biológico pode funcionar 100%, igualmente ao químico. Então [o uso] foi subindo, subindo, subindo constantemente, no decorrer dos anos.
(…) Na pandemia, em que a gente teve restrição da chegada de insumos no Brasil, paralela a guerra na Ucrânia, onde a gente importa a maioria dos fertilizantes, surgiu a dúvida: como é que nós vamos produzir? O Brasil importa 85% dos fertilizantes que usa e é extremamente dependente da agricultura. Então, para os biológicos foi uma grande oportunidade, pois a gente pôde chegar para os agricultores e falar: “olha, que tal se você tentasse isso que a gente está falando há um monte de tempo e você tem medo?”. Como não havia alternativas, eles testaram. E a gente viu o momento em que estourou o uso de biológicos, pois viram, comprovaram e verificaram que o que a gente fazia, era possível.
Com essa explosão, um pouco desordenada, alguns conceitos não adequados passaram a ser espalhados, de que é muito fácil fazer um biológico, que não tem nenhum perigo ou que não teria que investir em pesquisa para novos produtos. Então, vimos uma grande desinformação, sem ver quais as limitações, sem ver de que todo o fazer biológico é diferente do fazer/desenvolver os químicos.
São produtos que exigem mão de obra altamente qualificada, treinada, especializada, que não tem no país em quantidade suficiente ainda para essa explosão. Existem microrganismos que estão disponíveis, mas que se realmente quer explorar o potencial, é preciso investir em pesquisa. Para produzir tem que ter um controle de qualidade, sobretudo para não afetar a biodiversidade dos solos brasileiros.
Se hoje o Brasil tem essa posição de liderança [na P&D e uso dos bioinsumos], é porque a gente sempre teve uma legislação forte, que fala que somente os microrganismos validados pela pesquisa é que podem ser utilizados. Então, tenho certeza de que vai continuar a crescer porque é um caminho sem volta, por várias razões: as pessoas querem comer alimentos mais saudáveis, os agricultores querem melhorar a saúde do solo, são produtos sem resíduos. Agora, como vai ser esse caminho, acredito que a gente vai passar por dois ou três ainda para se acomodar e saber como será este mercado.

4 – Falando especificamente de safras e projeções, qual a sua avaliação quanto a adoção dos produtos biológicos para os próximos anos – em comparação às outras tecnologias? Consegue nos trazer algum indicativo que as pesquisas apontam?
Quanto a projeções de mercado, nós acompanhamos a de vocês [indústria e entidades]. Enquanto Embrapa, nós fazemos as pesquisas dos produtos e ficamos na torcida para a adoção. A gente observa que, pela quantidade de agricultores que procuram a gente, querendo informações e tal, o interesse está cada vez melhor.
(…) Tenho o meu ponto de vista de onde acredito que esteja o gargalo de bioinsumos. O que eu vejo: apesar de sermos líderes mundiais na tecnologia, nós temos o uso de bioinsumos, em relação aos químicos, entre 10% e 15%. Nós temos, hoje, soluções prontas em que acredito que facilmente chegaria a 50%. Digo prontas, prontas. Qual é a limitação? Vejo que a gente tem solução para mais de 100 espécies, mas a limitação não está na pesquisa, está no setor privado.
Um levantamento da Embrapa mostra que 73% dos agricultores que cultivam soja hoje no Brasil, têm menos de 50 hectares. Esses 73% não têm nenhum produto inoculante que possam comprar para usar. Isso, para mim, chama atenção. Falamos “investimento, investimento de pesquisa”, sim, a gente precisa avançar muito. Mas às vezes a pesquisa tem as soluções e o desafio está em não estender [a tecnologia] para outras culturas ou para outros agricultores.
Com isso, poderíamos ter uma grande expansão do uso de bioinsumos na nossa agricultura, de soluções que já estão na prateleira.
5 – O Brasil desempenha um significativo papel na segurança alimentar brasileira. Como isso se configura em dados? como você avalia os sistemas brasileiros de produção agrícola, considerando a agricultura tropical brasileira e a complementariedade de tecnologias no campo?
Eu sou da Academia Brasileira de Ciências e coordeno um grupo de trabalho de segurança alimentar. Lá, nós lançamos um livro em 2024, de graça e disponível para download, e em 2025 fizemos a versão em inglês. Esse ano, o Itamaraty possui o Congresso Latino-Americano de Segurança Alimentar e nós pretendemos lançá-lo em espanhol. Quando a academia me deu esse papel, me falou “você vai escrever, vai estudar e apresentar sobre segurança alimentar”, foi um aprendizado. Eu sempre estudei muito na minha vida e falei: “nossa, como é que eu não tinha parado para pensar tanto”.
Conforme contei lá atrás de quando fui fazer Agronomia, uma coisa desde criança para mim era produzir alimentos. Era isso e pronto. Produzir para as pessoas não terem fome. E escrevendo esses livros em que tive contato com principais pesquisadores de diversas áreas, percebi que não. Produzir o alimento é tipo 30, 40% do que é a segurança alimentar. Segurança alimentar e nutricional é um conjunto de várias ciências. Como, por exemplo, ciências sociais (que estuda políticas públicas), ciências de dados (que vão nos dizer quem e onde estão as pessoas que passam fome), ciências econômicas (que nos apresentarão um estudo para falar o quanto de renda é preciso dar para uma pessoa sair da situação de fome). É preciso ter estudo disso.
A gente tem que educar a nova geração em hábitos alimentares saudáveis; em comunicação, de como você vai realmente comunicar e se as pessoas vão entender que a mensagem que você está dando está certa; e a própria produção de alimentos de grandes culturas, porque de um jeito ou de outro, a gente não comeria toda a soja que produz, mas com o dinheiro do que a gente exporta, conseguimos recurso para os programas de resgate das pessoas em insegurança alimentar grave; fortalecimento da agricultura familiar, que eu falo que não é nem um favor, uma vez que eles são responsáveis por 60, 70% do que a gente come.
“(…) [insegurança alimentar] tem que ser problema do setor público, do setor privado e do terceiro setor para resolver”
Mariangela Hungria
Neste livro, a gente realmente mostra que são todas essas ciências para resolver a questão. Não é um problema que uma pessoa resolve. Tem que ser do setor público, do setor privado e do terceiro setor para resolver. Um exemplo emblemático foi quando a gente terminou o livro em português em 2024. Havia saído os dados de que, por causa da Covid-19 e das políticas governamentais da época, o Brasil tinha 33 milhões de pessoas em situação de fome. E você vê, só após dois anos de programa governamental para conseguir tirar essas pessoas [da condição]. Esse ano, a gente teve a felicidade de ter anunciado que saímos do Mapa da Fome, o que significa, que menos de 2,5% da população do país está passando fome. Por outro lado, hoje o Brasil produz para sustentar 900 milhões de pessoas no mundo. Então, acho que a gente não merece que um brasileiro, nem ninguém, passe fome.
Temos que continuar trabalhando em todos os sentidos. Tanto a valorização, regionalização da comida, quanto o fortalecimento de programas, que temos em vários municípios, que é a compra [de alimentos] para a merenda escolas dos agricultores que estão nas proximidades. Assim, as crianças têm alimentos frescos, nutritivos, se a gente fortalece esses agricultores. Segurança alimentar é um tema maravilhoso, incrível e complexo. Ele é interdisciplinar e intersetorial. Então, somente com todos os ramos de estudo e todos os setores unidos que a gente consegue [avançar], e eu acho que o Brasil merece não ter um brasileiro passando fome.
6 – Com relação à Embrapa, como você avalia o papel da empresa de pesquisa brasileira no contexto internacional? Nesta trajetória de 40 anos, consegue nos elencar 3 pontos de destaque para a vitrine mundial?
A Embrapa é uma coisa fantástica. Foi assim, um momento brilhante do Brasil lá trás apoiar o Alysson Paolinelli e tudo, de ter visão de futuro, de criar a empresa e de investir. Acho muito importante a conscientização da sociedade da importância de ter “uma Embrapa”, uma empresa pública. Por quê?
Pegando o tema dessa nossa entrevista, biológicos. Por que que hoje nós somos os líderes mundiais de biológicos? A Embrapa investiu em pesquisa de bioinsumos desde lá trás, na época que falei em que só se falava em químicos. São mais de 4,5 décadas, quase cinco, investindo em algo que ela [empresa] vislumbrou que era importante e que ninguém via que era, enquanto todo o resto do mundo investia e acreditava apenas em químicos.
Acredito que o único erro da Embrapa, seja chamar de “empresa” [risos]. Isso confunde o nosso papel. O que as vezes as pessoas não compreendem é que nós não vendemos nada, não vendemos uma semente, entende?! A gente pode licenciar, pode fazer parcerias, mas esse recurso vai para o governo e pesquisa, não exatamente para nós. O que nós temos são tecnologias disponíveis, para todos os tipos de agricultura e de agricultores.
A partir do momento que o setor privado consegue caminhar de forma independente, a Embrapa sai de campo e vai para outros que não conseguem. Por exemplo, a Embrapa é a única que faz melhoramento de soja convencional, entende. Por quê? Porque ninguém quer fazer e ela vai atender aos agricultores que querem uma variedade convencional. Quem que vai estudar a cadeia do Tambaqui, na região Norte? Estudar uma cabra por família, no Nordeste? Quem quer fazer melhoramento de abobrinha? São coisas que ninguém quer fazer, que são importantes, e que a Embrapa desenvolve. Outros exemplos, o sistema plantio direto, a fixação biológica do nitrogênio, integração lavoura-agropecuária-floresta, entre outros.
A gente não tem lucro, mas temos a metodologia do balanço social, validada internacionalmente e que a gente usa. O quanto que isso resulta em renda a mais para o agricultor? Este balanço social verifica o quanto que a Embrapa contribuiu para essas tecnologias, quanto que elas valem e trazem retorno. Esse ano [2025], ela mostrou que a cada 1 real investido na empresa, há um retorno para a sociedade de 25 reais. E isso é importante.
Pesquisa agropecuária, considerando que a agricultura responde por um terço do nosso PIB, devia ser uma coisa de soberania nacional. Nesses dois, três últimos anos, temos buscado emendas parlamentares para fazermos algumas coisas. Hoje a gente é a líder em agricultura tropical, mas se a gente não continuar tendo investimento em pesquisa, a gente pode perder essa competitividade muito depressa. Acredito que são esses os três pontos para se considerar.
Perfil

Mariangela Hungria da Cunha é membro titular da Academia Brasileira de Ciências, da Academia Brasileira de Ciência Agronômica e da Academia Mundial de Ciências. Atua como professora e orientadora da pós-graduação em Microbiologia e em Biotecnologia na Universidade Estadual de Londrina (UEL), na Sociedade Brasileira de Ciência do Solo e na Sociedade Brasileira de Microbiologia.
Graduada em Engenharia Agronômica e mestre em Solos e Nutrição Vegetal pela Faculdade de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), a cientista possui doutorado em Agronomia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e pós-doutorado em três centros universitários internacionais – Cornell University (NY, EUA), University of California Davis (EUA) e University of Seville (Sevilha, Espanha).
Natural de São Paulo, cresceu e viveu com a família em Itapetininga, onde atualmente possui título concedido como Cidadã Itapetiningana.