Apicultura sustentável: boas práticas agregam valor ao mel e beneficiam o produtor e o meio ambiente

Agenda de polinizadores da CropLife Brasil incentiva  coexistência entre agricultura e os polinizadores e  amplia acesso a informações sobre certificações e selos de sustentabilidade.

Casa Apis/ Divulgaçã

A apicultura sustentável combina boas práticas de manejo com a conservação e a restauração de áreas de vegetação nativa. O resultado é positivo para todos os elos da cadeia — abelhas, produtores, consumidores e meio ambiente — e se traduz em ganhos concretos: maior valor agregado ao mel, melhor precificação e, em alguns modelos, bonificações diretas aos apicultores, tudo isso com baixo custo de implementação.

Essa integração entre produção, conservação ambiental e geração de renda também está no centro da agenda de polinizadores da CropLife Brasil, que entrou em uma nova fase em maio de 2026. A iniciativa busca ampliar a aplicação de boas práticas no campo e fortalecer a articulação entre agricultores, apicultores, meliponicultores, pesquisadores e demais integrantes da cadeia produtiva.

Entre as medidas essenciais para essa coexistência estão o cuidado com a colônias e as áreas que fornecem alimento e abrigo às abelhas, a aplicação responsável das tecnologias agrícolas e a comunicação entre agricultores e criadores. Essas ações contribuem para reduzir riscos aos polinizadores e favorecer tanto a produtividade agrícola quanto a produção de mel.

“Todos os tipos de mel, seja convencional ou orgânico, podem ser produzidos de forma sustentável”, afirma o apicultor e doutor em Zootecnia Heber Pereira. “Para isso, precisa ser lucrativo, respeitar o meio ambiente e a questão social.”

Para reconhecer a sustentabilidade da produção de mel existe uma série de certificações e selos, nacionais e internacionais. Para obtê-los, é preciso comprovar a adoção de práticas de conservação ambiental, comércio justo e rastreabilidade — e o ponto de partida é a regularização no Cadastro Nacional de Apicultores.

Primeiro passo: cadastro e regularização do apiário

No Brasil, o cadastro de apicultores e meliponicultores é obrigatório, inclusive para quem cria abelhas sem fins comerciais, já que esses insetos são considerados parte da fauna silvestre. Meliponários com mais de 49 colônias também precisam realizar o Cadastro Técnico Federal (CTF) junto ao Ibama, após obter autorização de uso e manejo do órgão ambiental competente, conforme a Resolução Conama nº 496/2020.

O Cadastro Nacional de Apicultores é feito pelos órgãos de Defesa Agropecuária de cada estado. A partir dele, o produtor pode obter a Carteira Nacional de Criadores de Abelhas (CNCA), emitida pela Confederação Brasileira de Apicultura (CBA), que assegura a adoção de boas práticas apícolas e meliponícolas e viabiliza a atuação do criador conforme as exigências de cada estado. A confederação também atua na validação das atividades apícolas junto a órgãos reguladores e ao mercado.

Heber Pereira/ Divulgação

“Não tem como comprovar uma produção sustentável sem cadastro. Esse é o primeiro passo e o mais importante, porque na verdade nem é possível comercializar o produto se não tiver cadastro”, explica Heber Pereira.

Uma etapa essencial da regularização é o georreferenciamento do apiário: registrar a localização exata da propriedade, com latitude e longitude, é fundamental para garantir rastreabilidade e comprovar a origem sustentável do produto.

Cuidados e certificações

Segundo Heber Pereira, produzir de forma sustentável não encarece a atividade, pelo contrário. Práticas como não pintar as caixas das colmeias ou evitar a suplementação com açúcar convencional, exigências comuns da produção orgânica, reduzem despesas do produtor. “Não há grandes despesas com insumos, deslocamento ou outras necessidades. O custo maior acaba sendo para obter as certificações, gerar notas e manter os registros e cadastros atualizados. Mas nisso as cooperativas e associações podem ajudar bastante, pois dificilmente um produtor individual vai arcar com esse custo sozinho”, afirma Pereira.

Entre as certificações que comprovam produção sustentável e agregam valor financeiro ao mel estão:

  • Selo Florestal FSC (Forest Stewardship Council): atesta que o mel é produzido em áreas de manejo florestal sustentável, com conservação de matas nativas.
  • Fairtrade: certificação de comércio justo, que garante remuneração digna ao apicultor, condições seguras de trabalho e produção sem degradação ambiental.
  • Rainforest Alliance: valida práticas de proteção ambiental e bem-estar social dos produtores.

“Há uma precificação diferente para o mel com certificação, que pode chegar a 2 reais por quilo. Pensando num apicultor que produz 5 ou até mesmo 10 toneladas de mel, essa diferença é significativa. E ainda, no caso do Fair Trade, tem o retorno de uma bonificação”, relata Pereira. Há também o Selo de Indicação Geográfica, que valoriza méis de qualidade única conforme a região ou bioma de origem — casos do Mel do Pantanal, do Mel de Melato da Bracatinga (Sul do país), do Mel do Oeste do Paraná, do Mel de Aroeira (Ceará) e do Mel de Boa Vista do Ramos (Amazonas).

Reflorestamento e comunidades: o caso da Casa Apis

A busca por soluções sustentáveis também impulsiona a conservação ambiental e a melhoria de vida das comunidades apícolas. Um exemplo é o programa de reflorestamento da Casa Apis, primeira cooperativa apícola da América Latina a obter a certificação Fairtrade.

O selo de comércio justo garante um prêmio pela produção, revertido coletivamente em benefícios para a comunidade — infraestrutura, equipamentos e até auxílio em questões de saúde dos cooperados. “A cooperativa comercializa o produto no mercado americano ou europeu e isso gera uma contrapartida, que é o Fairtrade. Esse prêmio vai para uma conta separada e segue direto para as comunidades. A decisão sobre o uso do benefício é coletiva, visando o bem comum e o interesse do grupo”, explica Sitonho Dantas, diretor-presidente da Casa Apis. “Já teve caso aqui de uma pessoa com um problema de saúde sério, e foi aprovado em assembleia que o dinheiro fosse para o tratamento do cooperado. Mas, em geral, utilizamos para instalação das casas de mel, compra de EPIs e colmeias para famílias mais carentes”, conta.

A Casa Apis reúne mais de 800 apicultores cadastrados e um total de 81 mil colmeias na região do Semiárido do Piauí, área marcada por longos períodos de estiagem que historicamente dificultavam a manutenção da nutrição e da força das colônias ao longo do ano.

Casa Apis/ Divulgação

“Já tentamos fazer suplementação alimentar e levar as colmeias para outros estados durante a estiagem. A suplementação não deu certo, e a apicultura migratória alguns ainda fazem, mas é caro. O adensamento do pasto apícola foi a melhor solução”, conta Sitonho Dantas.

O Projeto de Reflorestamento Apícola, iniciado em 2021, recupera áreas degradadas por meio do plantio de árvores melíferas, garantindo alimentação às abelhas durante todo o ano. Até hoje, o programa já reflorestou 232 hectares com mais de 180 mil mudas de espécies como Aroeira — que já esteve na lista de espécies ameaçadas de extinção —, Angico de Bezerro, Moringa, Algaroba, Leucena, Sabiá e Jatobá. Em 2023, a iniciativa foi premiada no 48º Congresso da Federação Internacional de Associações de Apicultores (Apimondia), na categoria Apicultores para o Planeta.

Os resultados são expressivos: os produtores integrados ao projeto reduziram suas perdas de colônia durante a estiagem de cerca de 90% para até 20%.

Divulgação

Menos mortalidade, mais polinização

A queda na mortalidade das abelhas é um dos efeitos mais diretos da adoção de práticas sustentáveis, tanto na apicultura quanto na agricultura. “A taxa de mortalidade é um indicador negativo, que geralmente está ligado a práticas irresponsáveis de pulverização por parte do agricultor, ou à falta dos devidos cuidados com as colônias, de responsabilidade do apicultor. Ter boas práticas dos dois lados vai permitir ter colônias mais saudáveis, com maior produção de mel e mais polinização, além da redução da mortalidade. Há uma interdependência e ganhos para apicultores e agricultores”, afirma Heber Pereira.

Fontes consultadas

Confederação Brasileira de Apicultura. Carteira Nacional de Criadores de Abelha (CNCA). https://cbame.com.br/carteiras-cnca/

Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). Resolução nº 496, de 19 de agosto de 2020. https://conama.mma.gov.br/?option=com_sisconama&task=arquivo.download&id=795

Fairtrade Brasil. Certificação de Comércio Justo. https://fairtrade-brasil.com/certificacao/

Sebrae. Indicação Geográfica valoriza mel sustentável da floresta. https://agenciasebrae.com.br/inovacao-e-tecnologia/indicacao-geografica-valoriza-mel-sustentavel-da-floresta/

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