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Fungicidas naturais

Os fungicidas naturais são antigos aliados dos agricultores, capazes de matar aqueles microrganismos identificados como fungos nas plantas.

Fazem parte dos fungicidas naturais, uma ampla gama de substâncias, que não necessariamente devem ser obtidas por síntese industrial/química. Eles pertencem a uma grande categoria, chamada de produtos biológicos, que são defensivos agrícolas de origem natural obtidos a partir de microrganismos, plantas e animais.

Nesse sentido, a adoção de biofungicidas tem auxiliado os defensivos químicos a combater doenças nas lavouras. Os benefícios desses produtos vão desde o controle de fungos à manutenção de tecnologias. Isso porque, o uso contínuo de agrotóxicos pode acarretar o aumento de dose, desenvolvimento de resistência e resíduos no meio ambiente.

Por isso, o uso de compostos de origem biológica tem sido priorizado como complementação aos químicos. Os principais fungicidas naturais utilizados na agricultura são aqueles desenvolvidos a partir de microrganismos e extratos de plantas. Desses extratos, os óleos essenciais são os mais utilizados.

Tipos de fungicidas naturais

Historicamente, o ser humano sempre teve que lutar contra doenças que afetavam seus cultivos. Os fungos podem causar diferentes doenças em plantas e assim impedir o seu bom desenvolvimento. 

Não por acaso, anualmente, um terço da produção agrícola é perdida devido a doenças fúngicas. Nesse sentido, é importante controlar esses microrganismos para que assim o produtor garanta uma boa produção.

Qualquer composto que mate fungos é chamado de fungicida. Ou, o controle de fungos pode ser obtido por substâncias que impeçam o crescimento/germinação do esporo, sendo chamados de fungistáticas. 

Também podemos dividir estes compostos que atuam sobre os fungos como erradicantes – quando eliminam o fungo, sendo em geral sistêmicos e penetrando nos tecidos vegetais – ou protetivos – quando agem localmente, e impedem, por exemplo, a germinação dos esporos, cujo significado segue na imagem abaixo.

significado de esporos

A princípio, os agricultores faziam uso de elementos como enxofre e cobre no controle de doenças em plantas, que pelos gregos já eram utilizados há mais de 2 mil anos. Há mais de 4 mil anos os organismos já eram utilizados no controle de pragas.

O primeiro registro de controle biológico do mundo é dos egípcios da Antiguidade, que utilizavam gatos em seus armazéns de grãos para controlar os roedores e proteger seu estoque. Na China, há 3 mil anos, ninhos de formiga eram colocados em laranjeiras para protegê-las de insetos.

Há também relatos de doenças causadas em bicho-da-seda, em 2.700 a.C. Em uma história mais recente, Aristóteles registrou doenças em abelhas, entre 330 a.C. e 323 a.C. Mesmo não sendo um controle de pragas, já se observava que microrganismos tinham potencial de infectar invertebrados.

Fungicidas naturais artesanais

A calda sulfocálcica e a calda bordalesa são fungicidas utilizados há pelo menos três séculos, considerados naturais.

O cal virgem e o enxofre são dissolvidos em água e submetidos à fervura, essa calda sulfocálcica é muito utilizada para o controle de fungos, ácaros, cochonilhas e outros insetos sugadores de hortas e de pomares até os dias de hoje. Já a calda bordalesa é uma formulação a base de cobre, com ampla ação sobre diferentes microrganismos, tendo propriedades fungicida e bactericida.

Os óleos essenciais e óleo mineral também fazem parte de muitos manejos de doenças na agricultura. No caso dos óleos essenciais, estes são misturas complexas de compostos aromáticos voláteis, podendo conter centenas de diferentes substâncias.

Extratos e óleos de inúmeras plantas – obtidos a partir de folhas, frutos e flores – podem ser utilizados para o controle de uma ou mais doenças. Óleos e extratos de mostarda, trevo, cássia, pimenta e manjericão podem atuar contra fungos. A atividade antimicrobiana também já foi comprovada em óleos essenciais de menta, canela e nim.

No caso do nim, a molécula responsável pelo seu efeito fungicida é um terpeno, chamado azadirachtina. Esse composto é extraído e utilizado na formulação de produtos biológicos modernos.

fungicidas naturais de origem animal

De modo geral, é grande o potencial de uso de produtos vegetais para controle de fungos. Inúmeros destes derivados de plantas, como alcaloides, glicosídeos e compostos fenólicos já foram comprovadamente eficazes para o combate de doenças fúngicas na agricultura, e podem ser utilizados para desenvolver produtos biológicos modernos.

Atualmente esses fungicidas naturais estão sendo formulados, muitos já se assemelham aos defensivos químicos pois, podem ser aplicados por meio de pulverizações terrestres ou aéreas. 

Além disso, a maioria dos produtos biológicos, também possuem ação sobre a parede celular do fungo, bloqueando os processos celulares como respiração, síntese da parede celular e da membrana celular, biossíntese de ergosterol, síntese de proteínas ou replicação de DNA.

Fungicidas naturais formulados e o uso no campo

A partir da pesquisa e da tecnologia no desenvolvimento de produtos biológicos, foi possível se profissionalizar cada vez mais a produção de fungicidas naturais. Atualmente, observamos maior disponibilidade de tecnologias para formulação e aplicação dos produtos no campo, maior facilidade de acesso e ganho na eficiência do controle.

A formulação de produtos biológicos deve manter a sobrevivência dos agentes microbiológicos que, por serem vivos, são mais sensíveis à radiação solar, substâncias químicas, altas temperaturas, pH e umidade. Para superar essas adversidades são utilizadas substâncias conhecidas como adjuvantes.

No Brasil, existem mais de 300 produtos de origem biológica registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) para serem usados no controle de pragas e doenças. 

De todos esses, 41 são biofungicidas registrados, e a maioria deles é formulado a partir de fungos. Segundo o MAPA, são 21 fungicidas naturais desenvolvidos a partir de fungos, 10 formulados a partir de bactérias, 4 em uma combinação fungo+ bactéria e 6 desenvolvidos a partir de extratos vegetais.

O primeiro fungicida natural formulado teve seu registro de utilização como defensivo biológico no ano de 2007. A partir daí, outros produtos foram desenvolvidos e registrados para o uso comercial.

O uso desses produtos no campo é amplo e não está restrito a uma única cultura, ou grupo de cultivos. Consumidores tem se preocupado cada vez mais com o que consomem. O uso de compostos considerados “mais naturais” pode contribuir para a inserção de determinados produtos no mercado.

Uma espécie de fungo muito utilizada como um fungicida natural é a Trichoderma spp., está presente em 38% dos produtos formulados no Brasil. E são pelo menos, 246 produtos biológicos à base de Trichoderma spp. registrados em diferentes países.

Produtos formulados a partir desse fungo tem papel importante no controle de fungos de solo, que atacam diversas culturas. Na soja, por exemplo o mofo branco (Sclerotinia sclerotiorum) é controlado com eficiência por produtos à base de Trichoderma. Estima-se que cerca de 28% da área brasileira de produção de soja esteja infestada pelo patógeno.

Fungicidas naturais formulados com Trichoderma spp. também tem eficiência comprovada no controle de doenças nas culturas da banana, cacau, hortaliças, maçã, entre outras.

A utilização dos defensivos biológicos evita a pressão de seleção no aparecimento de fungos resistentes. Cultivos enquadrados como orgânicos crescem cerca de 20% ao ano, e o mercado de produtos para controle de doenças deve acompanhar esta demanda.

A busca por selos de excelência (por exemplo para orgânicos) impulsiona a procura de produtos capazes de controlar doenças fúngicas e que sejam permitidos dentro das regras de regulamentação de tais certificações.

A divulgação e a difusão da modernização dos defensivos biológicos são de fundamental importância para que os produtores rurais tenham consciência e acesso às novas tecnologias. 

Desenvolvimento e regulamentação dos fungicidas naturais

O desenvolvimento de fungicidas naturais formulados passa pelos principais processos de pesquisa e validação que qualquer fungicida. Sua eficiência e segurança devem ser avaliadas para cada doença a ser tratada.

Confira todo o processo de regulamentação dos defensivos no Brasil

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Apesar de serem considerados “naturais”, não estão isentos da ocorrência de problemas de fitotoxicidade, ou simplesmente de que seu uso seja financeiramente inviável. Sua regulamentação frente aos órgãos de estatais varia conforme o país.

O Brasil não conta com uma legislação específica para regulamentação de produtos originados de extratos vegetais, como óleos vegetais. Assim, cada produto é analisado individualmente, caso a caso. A regulamentação brasileira destes produtos é feita de forma conjunta entre três diferentes órgãos reguladores: 

  1. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA),
  2. Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA),
  3. Ministério da Agricultura Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Detalhes desta regulamentação podem ser encontrados na Instrução normativa conjunta nº 32 (IN 32 de 26 de outubro de 2005). De forma independente, tais órgãos realizam avaliações para validar o produto quanto ao seu impacto ambiental (IBAMA), a eficiência para o controle de doenças nas lavouras (MAPA) e a segurança toxicológica para a população alvo e não-alvo (ANVISA).

De forma geral, alguns dos dados solicitados e avaliados são: 

Somente após o registro do produto no MAPA o biofungicida pode ser utilizado. Caso apresente alguma inadequação nas etapas de teste, o produto fica proibido em todo território nacional. Exemplos de motivos para o banimento de produtos para uso na agricultura são (mas não exclusivamente): ausência de antídoto ou tratamento para casos de intoxicação, produtos com potencial teratogênico, mutagênico ou carcinogênico e também com possível ação hormonal em humanos.

Para produtos baseados em microrganismos, devem seguir os mesmos protocolos de testes do que os aplicados para produtos químicos convencionais, mas de forma adaptada. Se em um composto químico a concentração deve ser determinada, no caso de compostos com microrganismos vivos, a quantidade deste também deve ser definida caso a caso. Consegue-se verificar na imagem abaixo com os desenvolvimentos nos produtos biológicos.

desenvolvimento de produtos biológicos com fungicidas naturais

A diferenciação no registro de produtos biológicos também tem ocorrido por meio das Instruções Normativas Conjuntas (INC) do MAPA, que os dispensam de algumas exigências daquelas solicitadas aos produtos de origem 100% química e estabelecem protocolos diferenciados para cada grupo de biodefensivo.

O que vem de novo em fungicidas naturais?

A descoberta de novos compostos e a atividade deles no controle de fungos é uma área que ainda precisa ser explorada. Podem existir muitas possibilidades de novos compostos e microrganismos ou até uma nova abordagem do conhecimento que já foi adquirida.

Um exemplo disso é a pesquisa sobre a utilização de endofíticos como uma fonte na exploração de novos compostos bioativos. Os endofíticos são um tipo de microrganismo benéfico que reside dentro da planta hospedeira. Não causam sintomas de doença ou dano visível, e promovem a manutenção da planta em condições tipicamente adversas.

A seleção da planta para o isolamento endofítico é a parte mais importante das pesquisas. Os fungos endofíticos precisam ser testados quanto à sua atividade antifúngica, impedindo o crescimento do patógeno ou mesmo matando os fungos que causam doenças em plantas.

Além disso, a utilização de tecnologia e técnicas modernas de formulação, como o emprego da nanotecnologia, nos produtos artesanais utilizados atualmente, são um caminho para apresentarem maior eficiência e qualidade, assim como visto nos produtos biológicos modernos.

A busca por produtos de importância agroquímica é uma demanda comum no mundo de hoje. Quanto mais seguros e sustentáveis os antifúngicos se tornam, mais eles são bem aceitos no mercado agrícola e pela sociedade.

 

Principais fontes:

Santra H. K. e Banerjee D., Natural Products as Fungicide and Their Role in Crop Protection. Natural Bioactive Products in Sustainable Agriculture, 2020.

Kim S. B. e Hwang B. K., Microbial Fungicides in the Control of Plant Diseases. Journal of Phytopathology, 2007.

Yoon M. Y. et al., Recent Trends in Studies on Botanical Fungicides in Agriculture. The Plant Pathology Journal, 2013.

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