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O milho Bt no Brasil: não podemos esquecer da revolução que ele provocou na cultura

O milho é um grão muito versátil. Nativo dos Andes, é ingrediente importante na culinária tradicional dos povos americanos. Incas, Maias, Astecas e tribos indígenas do Brasil já cultivavam milho há 4 mil anos. Quando os desbravadores europeus chegaram ao continente americano, descobriram o cereal que podia ser consumido cozido, seco ou na forma de farinha. E pelas mãos dos colonizadores a planta ganhou o mundo.

Hoje, além da culinária, o milho é usado na alimentação animal, na produção de óleo comestível e de biocombustíveis. 

Por conta da sua importância, ao longo do tempo, a planta foi passando por processos de melhoramento genético e ganhando mais qualidade, produtividade e maior resistência ao ataque de pragas.

Com o avanço da biotecnologia, cientistas desenvolveram o milho Bt, que recebe genes da bactéria Bacillus thuringiensis (Bt). Com a inserção desses genes, o milho passa a expressar uma ou mais proteínas inseticidas, tornando a planta resistente a insetos, como a largarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), uma das principais pragas da cultura. Em 2008, os agricultores brasileiros começaram a plantar o Bt, causando uma revolução na produção comercial do grão.  

Para conhecer melhor essa bela história, a CLB conversou com Juliano Farias, consultor, pesquisador e professor na Universidade Regional Integrada (URI) no Rio Grande do Sul, que trabalha com milho Bt há 13 anos.  

Como era o controle de insetos nas lavouras de milho antes da biotecnologia trazendo o milho Bt? 

O milho Bt provocou, especialmente para a lagarta-do-cartucho, uma revolução no campo. Essa é, para várias culturas, uma das pragas de mais difícil manejo. Talvez não tenhamos outro inseto tão difícil de manejar na cultura do milho. Pelo inseto ter um ciclo de vida muito curto, ficava difícil calcular o momento certo de uma aplicação de inseticida. A introdução do milho Bt resolveu esse problema. Antes, eram necessárias 4, 5 aplicações de defensivos, e havia resistência aos inseticidas. Com o milho Bt, isso foi resolvido.  Com o uso do milho Bt, a resistência aos inseticidas não ocorreu por um bom tempo assim como a necessidade de monitorar as lavouras para as aplicações de defensivos.  Tanto é que depois de alguns casos de resistência à tecnologia, o agricultor voltou a aplicar produtos químicos e ele já não estava mais acostumado a ter que monitorar a área e aplicar defensivos no timing correto.

Qual foi a principal mudança das tecnologias Bt na cultura do milho? 

A principal mudança trazida pelas tecnologias Bt na cultura do milho foi a comodidade para o produtor, o que levou a uma rápida adoção desses produtos. O crescimento da área de Bt foi muito rápida, justamente, em função de que o agricultor tinha um problema muito grande e muito difícil de manejar. Não era só o custo de inseticidas, nem apenas o monitoramento, mas também o fato de que o agricultor tinha que entrar com máquina pulverizando frequentemente a lavoura. E, de repente, ele passou a utilizar uma tecnologia que resolvia praticamente 100% do problema. Em poucas safras fomos de 0 para 90% de adoção de área no país com tecnologia Bt. Em áreas de alta tecnologia de milho deve-se chegar próximo a 100%. A tecnologia deu muita tranquilidade já que não precisava entrar mais na lavoura, não monitorava mais, não pulverizava mais.

Já estamos desde 2008 com milho Bt no campo. Que riscos podemos esperar?

O risco direto é a perda de tecnologia por falta de refúgio. Para quem não sabe, o refúgio é uma área plantada com sementes de milho não Bt, a uma certa distância do local de plantio com milho Bt, com o objetivo de proporcionar a geração de insetos susceptíveis. Sem o refúgio, pode ocorrer a perda de algumas proteínas Bt e termos que voltar para o controle químico puramente.

Na sua opinião, qual é a dificuldade de adoção do refúgio?  

A adoção do refúgio melhorou, mas está muito distante do ideal. Muitos produtores acabam não fazendo. Vejo que falta uma conscientização por parte de produtores e técnicos e falta apoio governamental. Talvez, o que possa ocorrer é uma conscientização nas próprias empresas de melhoramento de produzir milhos não Bt, para áreas de refúgio, com alta performance em termos de produtividade. E naturalmente, o produtor vai partir para esses híbridos não Bt´s, pois no final das contas o que ele quer é produtividade. Se ele tiver uma área de refúgio altamente produtiva, não tem problema ter que pulverizar várias vezes desde que compense.

Se a adoção do refúgio não ocorrer, conforme recomendado, o que poderá acontecer com a produção de milho? 

Primeiro, podemos perder as tecnologias. Num segundo momento, vamos ter que partir para controle químico. Este controle, além de ser mais caro, é mais difícil de executar. Não temos só os custos do inseticida, mas tem as máquinas – hoje, o diesel é caríssimo; teria que entrar mais vezes na lavoura para pulverizar e, ainda assim, podem ter perdas porque o controle químico nunca chega próximo dos 100% de controle, sempre há falhas e sempre vai haver perdas em função do manejo. Consequentemente, vamos ter elevação de custos e redução de produtividade em menor ou maior grau.

O que os produtores deveriam fazer para aumentar a sustentabilidade dessas tecnologias? 

Os produtores deveriam ter maior conscientização e serem orientados sobre a necessidade de refúgio, e as consequências de não fazer, e voltar para o controle químico plenamente. 

Não há possibilidades, no curto prazo, de desenvolvimento de novos milhos Bts para substituição dos produtos que estão no mercado? 

Não é tão simples. A pesquisa demora e introduzir um novo gene não é algo que se possa fazer rapidamente.  A última proteína Bt com efetividade em lagarta, que acaba sendo o foco principal nessa cultura, é de 2011. Estamos há 10 anos sem o lançamento de uma nova proteína com alvo em lagarta no mercado brasileiro. O investimento é alto, de milhões de dólares, o retorno é a longo prazo e, às vezes libera e perde por resistência em poucos anos.

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