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Floresta pode fazer renascer água

Desde 2011, o estado do Espírito Santo desenvolve o Programa Reflorestar. A iniciativa tem como objetivo a restauração do ciclo da água através da conservação e recuperação da cobertura florestal.

Além de preservar os recursos naturais, o trabalho cria oportunidades e renda para o produtor rural ao estimular a adoção de manejo sustentável dos solos. Até agora, já são mais de 10 mil hectares de restauração florestal e mais de 10 mil hectares de florestas em pé reconhecidas com Pagamento por Serviços Ambientais – PSA.

Em torno de 4 mil produtores rurais participam do programa. A meta é alcançar mais 1.500 durante este ano e outros 1000 em 2022.

Para falar sobre a relação entre florestas e água, a CLB conversou com o gerente do Reflorestar, Marcos Sossai, da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEAMA).

Por que a necessidade de se realizar o programa Reflorestar no Espírito Santo?

O programa foi lançado em 2011 e estamos completando 10 anos em junho. Apoiamos o produtor rural a plantar floresta e sempre com foco na água.  Aqui no Espírito Santo, não temos muita presença desse recurso natural, vive-se muito no limite, e quando tem períodos mais longos de estiagem, passamos aperto. Em 2015, pela primeira vez faltou água na grande Vitória (capital do estado). Então, a gente planta floresta para ter água.

Como o Reflorestar ajuda na recuperação do ciclo da água (hidrológico)?

É fato que a recuperação das propriedades físicas do solo que vão contribuir para um retorno gradual do ciclo da água não ocorre de um dia para o outro, tende a demorar um pouquinho para acontecer.  Mas, temos vários depoimentos de produtores rurais que depois de 2, 3, 4 anos já notam grande diferença, como olhos d´água sendo recuperados. Falamos muito de nascente, mas, às vezes, a área mais importante para se fazer com que uma nascente verta água está acima dela. A nascente é uma torneira, o local onde a água aflora, mas ela infiltra na cabeceira, em alguma encosta. Então, saber onde recuperar é o mais importante.

Mapeamos mais de 200 microbacias do estado, reduzimos para 106, tirando as grandes e as pequenas. Com o uso de um programa, sabemos exatamente as áreas que devemos recuperar. Um exemplo é a bacia do rio Jucu, a mais importante da grande Vitória. Pela análise, ao recuperarmos mais ou menos 1.200 hectares, a empresa que gerencia essa captação de água deixará de gastar mais de 100 milhões de reais, em 20 anos, porque a água vai chegar mais limpa. E, com isso, poderia investir na manutenção da floresta e, mesmo assim teria lucro.

E como as áreas são escolhidas?

Não podemos atuar onde não existe dinheiro. O próprio estado tem uma fonte boa de recursos. Em 2008, foi determinado que parte dos royalties de petróleo e gás deveria ser destinado aos PSA´s, que é um volume satisfatório por ano.  Mas, hoje, a nossa principal fonte de financiamento é o Banco Mundial. O estudo que fizemos das microbacias foi uma exigência do banco para que pudéssemos ampliar a área de atuação. A aplicação do dinheiro vai para um local que tenha perspectiva de que esse mecanismo se autossustente.

Como funciona o pagamento por serviços ambientais?

O PSA (Pagamento por serviços ambientais) no Espírito Santo é um pouco diferente do restante do Brasil. Pagamos pela mata conservada, mas também pagamos para que o produtor recupere o local.  E quando se trata de recuperação, o produtor tem um recurso destinado para a compra de muda, de cerca, artigos considerados caros. Enquanto a gente paga R$ 320 por hectare ano pela mata conservada, pagamos mais de R$ 11mil por hectare para que possa comprar muda, cerca e outros. É um investimento que chamamos de PSA de curto prazo: é pago uma vez, o produtor consegue se capitalizar, comprar o que precisa para recuperar a floresta ou boa parte dela e a mão-de-obra é a contrapartida dele. O contrato dura 5 anos e o produtor tem que mostrar a floresta plantada ou em recuperação. Caso esteja correto, o dinheiro é como doação, caso faça errado, tem que devolver.

O nosso programa, muitas vezes, é confundido com programas de conservação, mas não é só isso. Ele é focado também no social, na geração de renda do produtor rural. Apoiamos a plantar floresta que gere renda, logicamente, uma renda sustentável.

Para dar um exemplo, os sistemas agroflorestais. Quando você mistura cacau, espécie nativas e café, tem um sistema agroflorestal, tem a proteção do solo, tem maior infiltração de água e vai ter uma renda. E, com isso, consegue agregar melhoria na qualidade de vida, infiltração de água no solo, segurança hídrica, tudo de forma sustentável.

Há resistência do produtor para receber o programa?

Para quem trabalha na questão de reflorestamento, ainda falta sensibilidade e, talvez, tino comercial. Afinal, esperar que o produtor rural entenda, de primeira, todos os benefícios que a floresta vai trazer, e achar que isso é suficiente para que haja uma mudança de comportamento, é muito ousado.

É muito mais fácil demonstrar que vai ganhar dinheiro e, nesse pacote, ele vai vendo os benefícios. Acreditamos que o produtor pode plantar, produzir, ter renda, melhorar o solo e a água, tem que estimular ele a plantar e, se funcionar bem, o produtor vai querer fazer mais.

Cada produtor rural é um empresário. A relação de floresta com geração de renda é o mais importante. É mostrar pra sociedade que recuperar floresta não é um fardo. Temos que produzir de forma sustentável e manter o recurso hídrico intacto.

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