Home Notícias Melhoramento genético de árvores gera benefícios ambientais

Notícias

Melhoramento genético de árvores gera benefícios ambientais

O setor florestal vem tendo muito sucesso com o melhoramento genético de árvores destinadas à produção de papel, celulose, energia e movelaria. Em 20 anos, o aprimoramento de algumas espécies fez o rendimento médio das florestas comerciais quase dobrar. Além disso, a qualidade da madeira também melhorou muito, conferindo ainda mais sustentabilidade ao setor. 

A grande novidade é que pesquisadores da Universidade Federal de Viçosa (MG) estão aplicando essas técnicas na reprodução e no desenvolvimento de espécies nativas da flora brasileira. Plantas que passaram por esse processo de melhoramento estão sendo usadas para recuperar áreas atingidas por uma das maiores catástrofes ambientais do Brasil, em Brumadinho, (MG).

A CropLife Brasil conversou com um dos líderes desse projeto, Gleison dos Santos, doutor em engenharia florestal e professor da área de melhoramento genético e inovação da UFV.

Como o desenvolvimento de tecnologia impactou o rendimento das florestas comerciais?

O setor florestal é um case de sucesso. Com investimento em pesquisa, inovação e desenvolvimento de clones, o setor conseguiu sair de uma produtividade de 20 metros cúbicos por hectare, de 30 anos atrás, para acima de 40 metros cúbicos. Não só aumentou a produção de madeira no campo como aperfeiçoou a qualidade dessa madeira para produção dos mais diferentes produtos – celulose e papel, carvão vegetal para uso de siderurgia, MDF, energia. Então não só produz mais por hectare como o que produz é melhor. E houve evolução referente a convivência da floresta com o meio ambiente, aumentando a sustentabilidade nesse período.

O que confere sustentabilidade às florestas geneticamente melhoradas?

O setor florestal é um dos setores que sempre respeitou o meio ambiente até pelo convívio com a floresta em si.  E tem evoluído muito. Hoje produzimos mais com menos, utilizando menos água do solo, menos nutrientes. Desenvolvemos clones mais eficientes na maximização do uso desses recursos. Ou seja, com menos recursos, produzem mais madeira. 

No geral, o setor começou muto forte no sul e sudeste do Brasil com plantios florestais. Muita tecnologia foi desenvolvida, o que fez com o se expandisse para todo o país. Hoje, centro-oeste, nordeste e norte têm muita tecnologia de floresta plantada. 

O que o melhoramento genético agregou à produção das florestas plantadas? 

O melhoramento genético permite desenvolver cultivares mais produtivas, ou seja, que produzem mais madeira por hectare e, também, são mais tolerantes à seca, ao frio, às pragas e doenças e mais adequadas ao produto industrial.

Um ponto bastante interessante é a pesquisa e o desenvolvimento da inovação de forma colaborativa. Por exemplo, temos um projeto voltado ao desenvolvimento de cultivares tolerantes à seca com 15 empresas envolvidas. 

Temos um outro projeto com 18 empresas, envolvendo um gênero de árvore chamado Corymbia, que tem melhor qualidade de madeira e maior densidade de casca para alguns produtos. O setor se une para desenvolver cultivares usando a experiência da universidade e também a sinergia das empresas e produz cultivares de todas essas empresas. O trabalho em sinergia no setor florestal é muito grande. E os projetos abrangem todas as regiões do país.

Através da universidade, da SIF (Sociedade de Investigações Florestais) do instituto de tecnologia, conseguimos reunir essa turma em projetos que, individualmente, são caros, mas que dessa forma, se torna viável. 

Temos parcerias entre a universidade e a SIF com mais de 100 empresas que trabalham florestas plantadas e nativas. Atuamos do Amapá ao Rio Grande do Sul. O setor investe muito em ciência e tecnologia e colhe muitos louros a partir desse investimento.

Vocês estão aplicando as técnicas de melhoramento desenvolvidas para plantas comerciais também para plantas nativas. Árvores estão ajudando a recuperar as áreas degradadas pelo desastre de Brumadinho. Como isso funciona? 

O setor se preocupa com a parte de conservação ambiental. A técnica que estamos usando lá em Brumadinho, que se chama Resgate de DNA e indução de florescimento de espécies nativas, foi desenvolvida primeiro para florestas plantadas. 

O projeto, oriundo de uma dissertação de mestrado da UFV, começou em abril de 2020. Foi um projeto inicial de 1 ano com 4 espécies – jequitibá, jacarandá da Bahia, ipê amarelo e braúna. E estamos fechando um novo projeto em que pretendemos trabalhar com 30 espécies. 

Nós temos a parente desse trabalho de resgate do DNA e aceleração de florescimento em espécies nativas. A Mineradora Vale descobriu esse trabalho e contratou para ser utilizado lá em Brumadinho. Com o rompimento da barragem, uma quantidade gigantesca de resíduos provocou danos físicos nas árvores. Tiveram árvores que ficaram com 5 a 6 metros de resíduo acima da altura do solo, ameaçando sua sobrevivência. 

A partir daí, mapeamos as principais espécies que estavam em risco de morte mais imediato, extraímos parte da planta, trouxemos para a universidade e usamos um processo de enxertia. Resgatamos o DNA dessas árvores.  Descobrimos que, com a aplicação de alguns hormônios, podemos fazer essa planta florescer mais rapidamente. A planta atinge a máxima função na natureza quando ela produz flores e frutos. Assim, atinge agentes dispersores, serve de alimentação e deixa descendentes através dessas sementes. Naturalmente essas árvores demorariam 10, 15 anos para florescer. Com essa tecnologia, em um ano ela está florescendo e já produz flores e frutos. Então, além de não permitir que um DNA morra, conseguimos que a árvore cumpra a máxima função na natureza num tempo até 10 vezes menor. A aplicabilidade é gigantesca.

Iniciamos esse trabalho na universidade, mas aplicamos numa escala de 4 espécies. Agora vamos partir para um trabalho maior, com 30 espécies do bioma Cerrado, Mata Atlântica e que estão em risco ambiental, perigo de extinção.

E essa é a nossa função. Extrair o conhecimento gerado na universidade e levar para o mercado, onde ele pode impactar, gerando emprego, trazendo desenvolvimento e conservação ambiental.  Na UFV conseguimos isso com bastante sucesso. Ou seja, produzir algo que seja prático e que possa fazer a diferença para a sociedade, para o meio ambiente e para a economia.

Aviso de cookies
Usamos cookies para melhorar a experiência de nossos usuários em nosso site. Ao acessar nosso conteúdo, você aceita o uso de cookies como prevê nossa política de cookies.
Saiba Mais