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Evolução da agricultura brasileira e inovação no desenvolvimento de defensivos

Não é preciso reinventar a roda para inovar. Uma nova maneira de uso, ou um novo procedimento, muitas vezes podem mudar a realidade de um nicho do mercado. Inovar também é enxergar que nada é tão bom que não possa ser melhorado.

Inovação é a palavra do século XXI. Nas últimas décadas vimos muitas áreas se transformando e mudando formas e pensamentos no que diz respeito ao modo como produzimos e consumimos.  Na área agrícola não seria diferente.

As áreas de pesquisa e desenvolvimento de insumos para o campo tem levado produtos cada vez mais inovadores para as lavouras. De fato, acompanhamos uma verdadeira revolução na área de controle de pragas e doenças das lavouras. A interação da química com os organismos alvo e não alvo vai muito além do olhar para as moléculas químicas. Genética, ecologia e química se integraram em grandes pesquisas. E a especificidade e a segurança passaram a ser as palavras de ordem na busca incansável por produtos cada vez mais sustentáveis. 

Controle de pragas e o desenvolvimento agrícola brasileiro 

O Brasil ocupa uma posição de destaque no mundo como produtor de alimentos, fibras e biocombustíveis. Somos reconhecidos no comércio mundial de café, soja, milho, algodão, carne bovina, carne de frango, carne suína, açúcar, suco de laranja e celulose. Mas, não foi sempre assim. 

Vivemos grandes transformações no nosso cenário agrícola. Em 30 anos o país passou de importador de produtos para terceiro exportador mundial e primeiro exportador de produtos agropecuários. 

Nas últimas três décadas o Brasil teve crescimento de 360% na produção agrícola de grãos, enquanto o uso de suas terras para esse fim cresceu em apenas 56%. Em 1980 eram produzidas 52,21 milhões de toneladas em 40,38 milhões de hectares, em 2018 a safra atingiu 242,12 milhões de toneladas em apenas 63,22 milhões de hectares. O último levantamento da CONAB aponta que a safra 2019/20 – deve chegar 250,9 milhões de toneladas.

A tecnologia e a inovação no campo foram as principais responsáveis por essa expansão. Especialmente por sermos um país tropical, ideal para o crescimento de pragas, os defensivos agrícolas exercem um papel decisivo.

Impactos da falta de controle de pragas na agricultura 

Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), cerca de 40% da produção agrícola do mundo pode ser perdida todos os anos pelo ataque de pragas. No Brasil, o clima promove que a diversidade e a população das pragas sejam bem maiores do que em países de clima frio, com o inverno intenso.

Se levarmos em conta a produção das culturas da soja, milho e algodão, os prejuízos em não se controlar as pragas podem variar de 9,5% até 40%. E essas culturas respondem por cerca de 86% da área plantada com grãos e cereais e 35% das exportações do agronegócio. Analisando o montante produzido, essa perda é muito grande. Estamos falando de um prejuízo na ordem de bilhões de dólares.

Por isso, o controle dessas pragas é tão necessário e o uso dos defensivos agrícolas é uma das ferramentas que participam desse controle. Adicionalmente, o manejo integrado de pragas (MIP) é uma estratégia que vem sendo implantada e difundida em muitas propriedades. O MIP busca controlar as pragas, reduzindo os danos nas lavouras e resistência das pragas, mas não exclui o uso de defensivos.

Inovação no desenvolvimento de defensivos agrícolas

O investimento em pesquisa e desenvolvimento de novos produtos no setor de defensivos agrícolas é bastante elevado. Para desenvolver um novo produto, normalmente se parte de um banco de cerca de 160 mil novas moléculas. Dessas, apenas 1 é comercializada. 

Esse longo processo, envolve uma diversidade de estudos que vão desde as avaliações de eficácia agronômica da molécula e formulações até detalhadas investigações de segurança à saúde humana e ao meio ambiente.

E como todos os produtos derivados da ciência, a pesquisa e desenvolvimento dos defensivos químicos foi sofrendo mudanças ao longo do tempo. À medida que aprimoramos o conhecimento sobre plantas, pragas, doenças e impactos de tudo que aplicamos no campo, aperfeiçoamos o trabalho. Um caminho natural que acompanha a inovação nas suas mais diversas áreas. Especialmente na agricultura, esse fluxo foi muito intensificado. 

Para ilustrar essa evolução é interessante ressaltarmos um marco histórico. Nos anos 1960 a preocupação central no desenvolvimento de novos produtos era o de maximizar a produção, com o maior controle possível das pragas e doenças da lavoura. Afinal, nesse período, sofríamos com a escassez de alimentos. Portanto, a preocupação estava em buscar moléculas que tivessem elevada eficácia contra as ameaças às lavouras. 

Atualmente, eficácia é apenas um dos vários fatores que são levados em conta no desenvolvimento de um novo defensivo. Os produtos modernos buscam especificidade para reduzir efeitos em organismos não-alvo e no meio ambiente. Fabricantes e pesquisadores vêm trabalhando com esse conceito e os riscos e doses dos defensivos químicos vêm caindo continuamente ao longo do tempo. 

SAIBA MAIS

Agricultura moderna: conheça as tecnologias que fazem parte do campo

O melhor conhecimento sobre os sítios de ação dos defensivos (local onde efetivamente age a molécula) resultou no desenvolvimento de produtos mais específicos, seletivos e eficazes. Isso faz com que organismos não alvo e que não causam danos às culturas, não sejam afetados.

Outra evolução na área de controle de pragas e doenças no campo, é verificada na tecnologia de aplicação e formulações dos defensivos químicos. Produtos mais eficientes e mais bem aplicados contribuem expressivamente na redução da dose do pesticida, sem afetar sua eficiência.

Além disso, os produtos mais modernos são mais rapidamente degradados no meio ambiente e não apresentam efeito acumulativo.

Ainda que diversos produtos com características inovadoras ainda estejam em avaliação aqui no Brasil, já observamos mudanças no padrão de uso de defensivos.  Analisando os defensivos em uso no Brasil, é evidente que houve uma redução muito significativa das doses médias utilizadas. Podemos dizer que a dose média dos produtos lançados a partir do ano 2000 corresponde a 12% da dose média dos produtos anteriores a década de 70. Esse resultado é um forte indicador de maior eficiência e de menor risco, por reduzir a exposição. 

Desenvolvimento e aprovações de defensivos no Brasil

Enquanto aprimoramos a pesquisa e o desenvolvimento de defensivos químicos, paralelamente, a regulamentação desses produtos foi ficando cada vez mais complexa. A exigência de dados e estudos que demonstrem segurança ao homem e meio ambiente está cada vez maior. Apenas para ilustrar, mais de 150 estudos são realizados para registrar um novo produto (novo ingrediente ativo), principalmente para atender aos requisitos da UE, EUA, Brasil, China e Índia. 

Toda essa complexidade colocou os defensivos entre as substâncias mais regulamentadas do mundo. Além disso são o que reúnem mais informações quando comparados à maioria dos produtos químicos, mesmo aqueles usados em produtos de uso doméstico e pessoal. 

A consequência é que, nos dias de hoje, para atender aos requisitos exigidos de eficácia e segurança ao homem e meio ambiente, gastamos em média, 11,3 anos da descoberta de uma molécula até o seu registro.  Essa média é no restante do globo, pois aqui no Brasil, o prazo chega a 18 anos.

SAIBA MAIS

Tecnologia e segurança sempre presentes no desenvolvimento de defensivos

Pela regulamentação brasileira um defensivo químico só pode ser comercializado depois de passar pela avaliação de três órgãos governamentais. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) precisa analisar os resultados dos testes e dos pareceres elaborados pela ANVISA e IBAMA. Ou seja, a aprovação do MAPA só ocorre após o parecer favorável dos outros dois órgãos.

No entanto, existe uma defasagem anual de cerca de 250 análises. A fila de espera é grande, e com isso o acesso aos novos defensivos é limitado.  Até o ano passado (2019), havia 29 produtos novos na fila de espera do registro. O produto é considerado novo quando o princípio ativo nunca foi usado no Brasil. 

Se compararmos com outros territórios que também possuem leis rigorosas para a avaliação e registro de inovação de defensivos agrícolas, podemos dizer que o produtor brasileiro está em desvantagem de acesso a novos produtos de controle de pragas. Por exemplo, destes 29 produtos na fila de espera 17 já foram registrados nos Estados Unidos, e 14 estão disponíveis para os produtores da União Europeia. 

Além desses grandes produtores, cabe citar outros países que também têm um sistema mais ágil de registro de defensivos, sem deixar de ser seguro. A Argentina, por exemplo, já aprovou o registro de 13 produtos da lista, e o Canadá 16. Apenas quatro produtos da lista (dos 29) não têm registro em nenhum dos territórios.

Dessa forma, é essencial que a regulamentação brasileira garanta análises de segurança sem perder o foco na entrega eficiente de produtos inovadores para os agricultores e sociedade. É preciso inovar também na forma como avaliamos e aprovamos produtos oriundos das ciências do campo. Só assim, poderemos prosseguir como um grande produtor de alimentos, fibras e biocombustíveis com sustentabilidade.   

Principais Fontes Nishimoto, R. Global trends in the crop protection industry. J. Pestic. Sci. 2019.