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As sementes crioulas são importantes no desenvolvimento de novas cultivares

São consideradas sementes crioulas – ou sementes tradicionais – as sementes de variedades locais, que foram utilizadas e guardadas por agricultores, durante um longo período de tempo. São caracterizadas por serem adaptadas às condições ambientais do local onde surgiram.

As sementes tradicionais foram selecionadas por décadas, passadas de geração em geração e seguem até hoje preservadas por algumas famílias de agricultores ou bancos de sementes. 

Mesmo sendo geralmente menos produtivas que as cultivares comerciais, nos últimos anos as sementes crioulas têm se tornado importantes fontes de variabilidade genética, na busca de genes de tolerância ou resistência a fatores bióticos e abióticos de interesse para agricultura moderna.

Sementes crioulas: são as sementes dos agricultores

Sementes crioulas, tradicionais ou indígenas se desenvolveram naturalmente em uma determinada região, país ou clima.  Em uma propriedade, uma aldeia ou até mesmo em um bioma específico. São sementes que foram selecionadas e manejadas pelos agricultores, no ambiente de cultivo local.

O cultivo de sementes crioulas é seguido por uma prática comum de se armazenar as sementes de suas lavouras para o cultivo do ano seguinte. Esse tipo de prática promove a seleção natural de plantas com características diferentes. Com isso, os produtores selecionam sementes cada vez mais adaptadas às condições do ambiente em que vivem.

O termo sementes crioulas remonta à época em que havia pouca ou nenhuma pesquisa de melhoramento genético de plantas. No final do século XIX, a partir do desenvolvimento da agricultura e a modernização das cultivares de cereais, grãos e outras plantas, os agricultores europeus começaram a buscar sementes geneticamente melhoradas. 

Com isso, as “novas sementes” seriam muito mais utilizadas nos plantios, e o termo “sementes tradicionais” foi rapidamente adotado para designar as variedades locais, que se apresentavam menos uniformes no desenvolvimento e que não alcançavam bons níveis de produtividade. Além disso, eram sementes que tinham misturas e não havia tecnologia empregada na sua produção.

Sementes tradicionais: seleção de plantas sem intenção

Quando existiam poucas alternativas aos produtores para plantar, colher e produzir seu próprio alimento, as variedades tradicionais evoluíram sem seleção intencional, cultivada por um longo período no sistema de cultivo, por meio de adaptação natural.

Essas plantas apresentavam características mais rústicas e sem muita tecnologia, refletindo diferentes níveis de envolvimento do agricultor durante o processo de seleção e armazenamento desses materiais. Ou seja, dependendo de como foram realizadas durante os anos, diversas misturas podem ter ocorrido, principalmente de espécies próximas ou que tivessem sofrido alguma mutação – que não era perceptível. 

No entanto, esta prática de coleta de sementes desapareceu em grande parte do mundo em favor de variedades que tiveram sua genética melhorada de forma intencional, derivadas de um pequeno número de espécies, concentrada em cereais e grãos. E pensando em diversidade genética e biodiversidade, as variedades de culturas modernas tendem a ser geneticamente muito semelhantes entre si

Sementes crioulas versus Sementes melhoradas

Cientificamente falando, a vantagem das sementes crioulas é que a manutenção de uma grande diversidade de características em seu genoma por muito tempo produzia culturas geneticamente diversificadas, particularmente adequadas para o cultivo em seu ambiente local e resistentes às doenças locais. 

Assim, uma variedade crioula pode produzir plantas com características altamente variáveis na aparência, o que resulta em alto nível de diversidade. Por esse motivo, essas plantas se tornaram um recurso genético valioso para as gerações futuras.

Um exemplo do uso dessas sementes atualmente é a sua utilização em programas de melhoramento genético. Uma variedade crioula pode ser escolhida como um pai para fornecer genes necessários para a adaptação local, como resistência à seca. Enquanto uma cultivar moderna pode ser usada para doar genes para outras características preferidas, como a presença de compostos promotores de sanidade ou um outro perfil de qualidade.

Sementes crioulasMarketing das sementes crioulas 

Além do reconhecimento da importância de se conservar sementes crioulas para manter a biodiversidade, atualmente, existem campanhas promovendo seu consumo em função de suas propriedades nutricionais e sensoriais “superiores”. Um fenômeno associado à crença de “um sabor do passado” que tem dado atribuições pouco justificadas às sementes tradicionais.

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As sementes crioulas podem ser encontradas em bancos de sementes individuais, coletivos ou institucionais, ou seja, espaços físicos de armazenamento de sementes, que visam preservar as sementes de forma adequada.

Em algumas regiões, estão presentes em feiras regionais ou eventos locais de troca de sementes, geralmente organizados por movimentos sociais, ONGs, cooperativas da agricultura familiar, sindicatos de trabalhadores rurais, ou ainda em locais virtuais, em sites de doação, troca, compra e venda de sementes.

Importância das sementes crioulas na diversidade genética

A diminuição da diversidade genética das culturas representa um risco para a segurança alimentar no futuro, especialmente à luz do crescimento da população humana.

A diversidade genética é de grande importância para a natureza e para a agricultura. Conhecê-la é fundamental para a preservação e desenvolvimento de culturas adaptadas às mudanças climáticas, mais produtivas e com maior resistência a pragas e doenças.

A maioria das empresas de sementes não comercializam variedades tradicionais porque os clientes normalmente não buscam esses produtos, tendo em vista a sua menor produtividade.

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Com isso, as variedades crioulas são principalmente usadas como fonte de genes, que enriquecem a biodiversidade. Por isso, a perda de variedades locais é uma grande ameaça para o abastecimento de alimentos, porque não apenas as variedades locais fornecem diversidade genética crítica para o melhoramento de cultivares futuras, mas a sua diversidade as torna incrivelmente resistentes em face do clima extremo e da explosão de pragas provocadas pela mudança climática.

Conservar e usar para diversificar

Há uma necessidade urgente de conservar o maior número possível de variedades tradicionais, para garantir que sua diversidade genética não seja perdida e possa estar disponível para futuros programas de melhoramento.

É importante identificar o que ainda existe e conservá-lo como um recurso futuro. Essas sementes certamente representam a conservação in situ da diversidade genética, tão importantes para a segurança alimentar. E seu uso já é presente em diversas pesquisas e em programas de melhoramento.

As principais contribuições das sementes crioulas para o melhoramento de plantas têm sido como fonte de características para absorção e utilização mais eficientes de nutrientes, bem como genes úteis para adaptações a ambientes estressantes, como carência de água, elevada salinidade e altas temperaturas. 

Na cultura da ervilha, por exemplo, os pesquisadores desenvolveram genótipos da leguminosa com resistência a uma planta daninha parasita (Orobanche crenata) a partir de cruzamentos feitos com sementes crioulas e espécies selvagens. Para outras plantas, como o milho, a resistência ao fungo Fusarium graminearum foi avaliada em genótipos que continham variedades tradicionais em sua árvore genealógica.

A conservação desses genes tem alta prioridade para sustentar a segurança alimentar e lidar com os efeitos das mudanças climáticas atuais e futuras. Não apenas as variedades locais devem ser conservadas, mas também as variedades locais que foram substituídas por outras novas e mais produtivas.

E principalmente, o acesso a essas informações precisa ser priorizado. Os bancos de germoplasma (bancos genéticos), necessitam compartilhar ativamente as informações de suas coleções usando diferentes canais, para promover o uso ilimitado e eficaz desses materiais para o desenvolvimento da agricultura sustentável.

É preciso melhorar o uso sustentável de variedades locais mantidas em coleções de germoplasma por meio da aplicação eficaz de avanços recentes no conhecimento como: origem, estrutura e características. É primordial o uso de ferramentas da Internet e redes de fornecimento de dados, incluindo o uso de ferramentas moleculares e biotecnológicas para a triagem de material e detecção de características agronômicas.

As sementes crioulas não podem ser conservadas exclusivamente como amostras de sementes mantidas em condições ex situ em bancos de sementes. A enorme contribuição dos agricultores na manutenção da diversidade de culturas e variedades tradicionais precisa ser reconhecida. 

A partilha dos benefícios e a sensibilização para o valor das variedades locais de cereais são as formas mais eficazes de promover a sua conservação e de garantir a sua disponibilidade contínua e sustentável.

 

Principais fontes:

Gaikpa D. S. et al., Exploiting genetic diversity in two european maize landraces for improving gibberella ear rot resistance using genomic tools. Theoretical and Applied Genetics, 2020.

Rubiales D. et al., Development of pea breeding lines with resistance to Orobanche crenata derived from pea landraces and wild Pisum spp. Agronomy, 2021.

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