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Ação da Cidadania: Mobilização para transformar o cenário da fome

O Dia Mundial da Alimentação nos remete a uma reflexão sobre a segurança alimentar de todos. O cenário atual, agravado pela pandemia de Covid-19, aponta que 19 milhões de brasileiros enfrentam dificuldades diárias para colocar comida na mesa. Por isso, entidades e grupos voluntários trabalham para arrecadar alimentos e distribuir para os que precisam. A ONG Ação da Cidadania é uma dessas instituições. Criada em 1993 no Rio de Janeiro, a organização tem como propósito formar lideranças e apoiar projetos de cidadania no Brasil. Entre suas ações, está o combate a fome.

Até setembro deste ano, com a campanha Brasil Sem Fome, a organização arrecadou 20 mil toneladas de alimentos, entregou dois milhões de cestas básicas em todo o país, beneficiando mais de dez milhões de pessoas. 

Agora, no mês em que se celebra o Dia Mundial da Alimentação, a Ação da Cidadania se prepara para lançar a campanha Natal Sem Fome.

Para conhecer melhor o trabalho da organização, conversamos com seu diretor-executivo, Rodrigo “Kiko” Afonso. Na entrevista, ele fala sobre a situação dos brasileiros e o grande desafio de diminuir o problema da fome no país.

 

Como traçar o panorama da fome no Brasil?

O Brasil saiu do mapa da fome em 2014. Neste ano, eram 4,5 milhões de pessoas, número considerado bem abaixo dos 32 milhões na época em que a ONG começou. Dois anos depois, em 2016, começamos a receber relatos de todo o Brasil de que a fome estava aumentando. A partir de 2017, com a retomada da extrema pobreza e a piora da situação, tentamos uma conversar com o governo federal, mas não tivemos sucesso. Então, tivemos que refazer a campanha Natal Sem Fome. Não é só arrecadar e distribuir alimentos, a campanha serve como um alerta para a sociedade em relação ao problema. Nós vemos a situação em tempo real, no dia a dia, diferentemente do IBGE que traz pesquisas de tempos em tempos.

Em 2018, o IBGE fez uma grande pesquisa de segurança alimentar e divulgou o resultado em 2020. Foi constatado que já tínhamos passado de 54 milhões de brasileiros com algum grau de insegurança alimentar para 85 milhões de pessoas. Ou seja, em apenas 4 anos, mais 30 milhões de pessoas passaram a conviver com algum grau de insegurança alimentar. 

O percentual dos que estão em grau grave – ou seja, passam fome – mais que dobrou. Passou de 4,5 para 9,1 milhões. Então, a fome vem num crescente muito forte. E em 2020, a pandemia de Covid-19 acelerou esse crescimento que já vinha acontecendo no país.

 

Diante da gravidade, como estão organizando campanhas para o combate à fome?

Quando o Betinho criou a Ação da Cidadania, ele conseguiu mobilizar milhares de comitês em todo o Brasil. Eram pessoas que formavam grupos de atuação social em torno dos desafios do seu território, os comitês da ação da cidadania, uma maneira das pessoas se sentirem parte do processo se mobilizando localmente. Essa imensa rede existe até hoje. São milhares de entidades espalhadas pelo país. É uma rede totalmente voluntária, articulada pelas suas lideranças para fazer com que esses alimentos arrecadados sejam distribuídos nos territórios. É um trabalho fantástico. 

Temos uma hierarquia em três níveis. Temos o gestor da rede que somos nós, a Ação da Cidadania; abaixo os comitês regionais, entidades maiores que coordenam ou articulam determinadas regiões; e os regionais articulam a distribuição para as entidades de cada território, localmente. Como exemplo, somente na campanha que fizemos por causa da Covid no ano passado, distribuímos alimentos para mais de 2.100 entidades de todo o Brasil. 

 

Hoje, é possível dizer qual região do país está em pior situação?

Essa resposta é difícil. A fome é muito espalhada no Brasil. Em termos percentuais, as regiões norte e nordeste são as mais afetadas. A região norte tem em torno de 30% da população em situação de extrema pobreza. Mas, quando analisamos números absolutos, a situação mudou nos últimos anos. A pobreza nas regiões sul e sudeste, consideradas as regiões mais ricas do Brasil, aumentou muito. 

Então, de um lado se tem 36% da população no norte em situação de insegurança alimentar grave, e nas regiões sul e sudeste, cerca de 6%. Mas, esses 6% são muito mais gente do que na região norte. 

Na nossa opinião, aconteceram uma série de políticas públicas equivocadas que levaram a uma migração do campo para a cidade. Sem um investimento nos municípios menores, os grandes centros ficam lotados e não há emprego para todo mundo, sendo que muitas pessoas aceitam subempregos, com renda ruim, mantendo-se na pobreza. Infelizmente, nos últimos anos, a política em relação a isso é terrível.

 

Para a campanha Natal Sem Fome deste ano, qual é a expectativa da Ação da Cidadania?

A expectativa é alta. Só na campanha Brasil sem Fome, até setembro, arrecadamos 100 milhões de reais. Nesses três meses, para o Natal sem Fome, esperamos arrecadar em torno de 30 milhões de reais com objetivo de ultrapassar esse volume. Já temos apoio de diversas empresas e parceiros. Porém, temos um caminho bastante longo para percorrer.

Essa campanha será destinada ao mesmo público que trabalhamos durante o restante do ano, desde comunidades ribeirinhas, quilombolas e indígenas até as localizadas nas regiões metropolitanas, como as favelas, e por aí em diante. Em especial, procuramos atender as comunidades mais marginalizadas pela sociedade, qualquer tipo de grupo que tenha uma dificuldade maior de adquirir alimento – como grupo de ex-presidiários, fundações de apoio a LGBTQI+. 

 

Como fazer parte da Ação da Cidadania e participar da campanha?

Em relação a doações, todas as informações estão no site www.natalsemfome.com.br . Lá, tem todas as formas para doar diretamente ou através de plataformas parceiras. Em relação ao voluntariado, tentamos incentivar que as pessoas criem os seus comitês de atuação de território, como Betinho fazia. As pessoas podem criar os comitês nos condomínios, nas escolas, no bairro para fazer uma articulação de como arrecadar e distribuir alimentos dentro de sua comunidade.

A gente procura ser uma plataforma de apoio à mobilização social. A ideia é tentar o engajamento das pessoas e, muitas vezes, essa é a primeira ação social de muitas porque têm vontade de ajudar, mas não sabem como. 

 

Qual o principal recado para que se consiga acabar com a fome?

Quando a pessoa está em situação de fome é porque todos os outros direitos foram negados. É essencial um olhar contínuo para fome. Não podemos esquecer que essa é maior indignidade que um ser humano pode passar e que não é causada pela natureza. A fome é causada por nós, seres humanos, nossa sociedade, nosso modo de vida. 

Para quem não tem uma refeição, eu lamento muitíssimo que isso aconteça, mas posso dizer para que tenham esperança de que, em algum momento, isso vai melhorar. O Brasil já aprendeu como fazer anos atrás, temos políticas públicas que podem voltar a ser empregadas da forma correta para resolver esse problema. Precisamos entender que é necessário termos governantes que entendam essa questão e que apoiem ações nessa área. O tamanho do problema é muito grande para que a sociedade civil – através de ong´s, empresas e pessoas físicas – resolvam a situação. 

Temos que mostrar a situação, os índices da fome, para que as pessoas tenham conhecimento e não pensem que quando acabar a Covid, acabou a fome. Infelizmente, mesmo que a pandemia acabasse hoje, ainda teríamos uma situação bastante trágica no Brasil por, pelo menos, uns 3 anos.

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