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A agricultura no papel da transformação social da humanidade

Criando raízes há cerca de 12.000 anos, a agricultura desencadeou tamanha mudança na sociedade e na forma como as pessoas viviam que seu desenvolvimento foi apelidado de “Revolução Neolítica “. Os estilos de vida tradicionais de caçadores-coletores, seguidos pelos humanos, desde sua evolução, foram postos de lado em favor de assentamentos permanentes e um suprimento confiável de alimentos.

A agricultura transformando a História – Revolução Neolítica

O cultivo de alimentos e bens por meio da agricultura produz a grande maioria do suprimento mundial de alimentos. Achados arqueológicos indicam que essa prática tem ocorrido nos últimos 12.000 anos, e amplamente se estabelecido em apenas 7.000 anos, quando áreas maiores começaram a ser cultivadas e comunidades foram se fixando e formando povoados.

Ain Ghazal foi o nome dado a uma vila encontrada no centro da Jordânia. Arqueólogos estimam que entre 7200 a 6000 a.C se iniciou a maior ocupação da região. Seus habitantes viviam em casas de pedra com vigas de madeira no telhado, as paredes e o piso brilhando com gesso branco.

Mas, por mais fascinante que essa estrutura fosse, o que realmente impressionou os arqueólogos foram os arredores da vila. Ain Ghazal foi uma das primeiras aldeias que surgiu após o alvorecer da agricultura. Ao redor do assentamento, foram identificados resquícios arqueológicos que mostravam o cultivo de cevada, trigo, grão de bico e lentilhas. Além disso, o pastoreio de ovelhas e cabras nas colinas circundantes também já era realizado.

Desde então, a agricultura tem transformado radicalmente as sociedades humanas e alimentado uma população global que cresceu de 4 milhões para 7 bilhões desde 10.000 a.C., e ainda está crescendo. 

Foi a partir da primeira revolução agrícola, que os habitantes do planeta começaram a mudar seus hábitos, sua vida e sua dinâmica de sociedade. Desde Ain Ghazal, os acontecimentos e o desenvolvimento são reflexos dessas mudanças que atingem o mundo contemporâneo em que vivemos.

A revolução agrícola da antiguidade

A revolução agrícola mudou nossa espécie e nosso planeta. À medida que grupos de caçadores-coletores começaram a domesticar plantas e animais, abandonaram a vida nômade, construindo vilas e cidades que duraram milhares de anos.

Acredita-se que a mudança para a agricultura tenha ocorrido de forma independente em várias partes do mundo, incluindo o norte da China, a América Central e o Crescente Fértil, uma região do Oriente Médio que abrigou algumas das primeiras civilizações.

Com o tempo, algumas plantas e animais tornaram-se domesticados ou dependentes dessas e de outras intervenções humanas, para sua propagação ou sobrevivência a longo prazo. Na década de 1990, os arqueólogos concluíram que a agricultura no Crescente Fértil começou na Jordânia e em Israel, uma região conhecida como sul do Levante.

Por que as pessoas abandonaram a caça e a coleta para a agricultura? 

Existem muitas razões plausíveis, todas as quais provavelmente desempenharam algum papel em momentos e regiões diferentes:

Expansão do agro

Muitos grupos diferentes começaram a experimentar maneiras de produzir alimentos extras, o que eventualmente lhes permitiu adotar uma nova forma de vida: estabelecer-se em grupos sociais mais estáveis.

Cereais como o trigo emmer, o trigo einkorn – trigos ancestrais – e a cevada, estavam entre as primeiras safras domesticadas pelas comunidades agrícolas no Crescente Fértil. Esses primeiros fazendeiros também domesticaram lentilha, grão de bico, ervilha e linho.

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Por volta de 6.000 a.C., a maioria dos animais de fazenda com os quais estamos familiarizados hoje, foi domesticada. Por volta de 5000 a.C., a agricultura era praticada em todos os principais continentes, exceto na Austrália.

A domesticação é um processo biológico no qual, sob seleção humana, os organismos desenvolvem características que aumentam sua utilidade, como quando as plantas fornecem sementes, frutos ou tubérculos maiores do que seus genitores selvagens.

A agricultura tornou as civilizações possíveis. Ao longo da história, o aumento da produtividade agrícola foi peça chave durante o crescimento populacional.

As inovações na produção e distribuição de alimentos ajudaram o abastecimento de alimentos a acompanhar o crescimento populacional. As safras antes só dos indígenas das Américas, como milho, batata-doce e mandioca, se espalharam pelo globo. Os nutrientes fornecidos por essas culturas super férteis ajudaram a prevenir a desnutrição, favorecendo um aumento generalizado da população, principalmente, após o século 18.

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A expansão das ferrovias, canais de transporte e novas máquinas para armazenamento e movimentação de grãos ajudaram os Estados Unidos a se tornarem um grande exportador de excedentes de trigo e milho, fornecendo grande parte desses alimentos para a Europa em épocas de escassez.

E em décadas mais atuais as melhorias no transporte refrigerado permitiram que os agricultores enviassem alimentos perecíveis para distâncias maiores.

No Brasil não foi diferente. O desenvolvimento da agricultura ocorreu desde os primeiros habitantes do país e foram sendo modificados e aprimorados durante as colonizações, onde os estrangeiros que entravam nas terras brasileiras, traziam consigo novas espécies vegetais e novas técnicas de como cultivar.

Agricultura e transformação social

O agro no desenvolvimento do Brasil

Com a descoberta do Brasil pelos europeus, os colonizadores encontraram nas nossas terras uma grande oportunidade para expandirem sua agricultura. De maneira geral, as plantas mais cultivadas no Brasil eram oriundas de outros países, logo após o descobrimento. 

O trigo e a cana-de-açúcar, por exemplo, ao que tudo indica, foram introduzidos em 1534, na Capitania de São Vicente, hoje São Paulo. Desde aí, outras espécies de plantas foram sendo introduzidas e se adaptando ao nosso clima tropical. Dessa forma, o agronegócio se tornou muito importante para o país.

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Nos municípios brasileiros que têm a agricultura como base da economia, existe maior oferta de emprego, crescimento das cidades e qualidade de vida. Existe um impacto positivo que esperamos de quem tem o compromisso de levar comida boa do campo à mesa.

E isso começou na década de 1971, quando as fronteiras agrícolas modernas do Brasil começaram a ser ocupadas, tornando áreas intensivas em capital e tecnologia. E com isso, algumas cidades tornaram-se centros de referência, tecnologia e desenvolvimento.

É evidente que existe correlação entre modernização agrícola e aumento da urbanização nos principais municípios produtores de grãos da fronteira agrícola moderna. Nesses locais, o percentual da taxa de urbanização é superior ao dos seus respectivos estados.

Exemplos são as cidades de Dourados (MS), Rio Verde (GO), Barreiras (BA), Uberlândia (MG) e Rondonópolis (MT), que surgiram como pequenos vilarejos e se tornaram importantes centros regionais. Verdadeiras conexões entre as suas regiões e o restante do território nacional. 

Além disso, nas últimas décadas, o Brasil também se tornou um grande provedor de alimento para o mundo e, atualmente, somos um dos grandes líderes agrícolas do planeta. Aumentamos a produção e a produtividade da agropecuária. Com isso, passamos a exportar grandes quantidades de alimentos e ainda diminuir o custo relativo da nossa cesta básica.

A partir de 1975, identificamos expressivo crescimento de produtividade. De uma produção que girava em torno de 1.500 kg/ha, em média, atingiu-se cerca de 4000 kg/ha em algumas culturas, nos tempos atuais. De importador de alimentos, o Brasil se transformou, em 50 anos, em um dos maiores exportadores mundiais.

A produção de cereais, por exemplo – milho, arroz, trigo – aumentou de 0,29 para 0,39 toneladas por pessoa entre 1961 e 2014, como resultado do aumento da produtividade ao longo do tempo. Um exemplo mais palpável pode ser visto na produção mundial de arroz.

Se compararmos o ano de 1961 com o de 2018 encontramos um aumento de aproximadamente 73% na produção associado a um crescimento de apenas 31% em novas terras. Enquanto, nesse mesmo período, a população cresceu mais de 60%.

Agricultura e economia do Brasil

Não dá para negar a importância do agronegócio para o Brasil. O setor responde por um quarto do Produto Interno Bruto (PIB) do país, sendo que 1 em cada 3 trabalhadores brasileiros está empregado em lavouras, criações, agroindústria e na produção de insumos. 

Municípios que têm a agricultura como base da economia apresentam, de modo geral, maior evolução no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do que regiões classificadas como “não-agrícolas”.

O IDH é um dado utilizado pela Organização das Nações Unidas para analisar a qualidade de vida de uma população. Ele considera educação, saúde e renda.

Analisando apenas o IDH de regiões onde se cultiva cana-de-açúcar, milho e soja se observa um crescimento de até 73% no IDH nas últimas décadas. Em regiões não agrícolas o crescimento foi de 57%. Em outras palavras, nas regiões onde o agronegócio é forte, toda a sociedade ganha. Áreas que se tornam polos de migração e referência em geração de oportunidades. 

Além disso, a digitalização dos processos e a introdução de ferramentas de precisão no campo, atrai novos talentos e exigem profissionais cada vez mais qualificados, colocando o Brasil também como exportador de tecnologia agrícola. Dessa forma, nossas terras agrícolas continuam a fornecer alimentos e outros produtos para a população humana que continua a crescer rapidamente.

E claro que não podemos esquecer que o desenvolvimento agrícola traz também muitos benefícios para a agricultura familiar. Apesar de ser um termo não muito bem definido globalmente, visto que cada país adota uma classificação, a agricultura familiar tem grande importância no comércio de alimentos básicos do mundo, sendo representada por cerca de 500 milhões de propriedades distribuídas ao redor do mundo.

Além disso, a tecnologia de irrigação, pesquisas de produção em ambientes protegidos e o desenvolvimento de novos insumos agrícolas com alta tecnologia também proporcionaram a ampliação da diversidade dos alimentos, além de ofertar alternativas sustentáveis para os produtores.

Não existe desenvolvimento sustentável sem considerarmos as pessoas. Por isso, empresas e setores alinhados aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentáveis (ODS) têm se empenhado em equilibrar o tripé que define o conceito da sustentabilidade: econômico, ambiental e social.

 

Principais fontes:

Tauger, M. B., Agriculture in World History. Routledge, 2 ed., 2020.

Contini, E. et al., Agro brasileiro em evolução: complexidade e especialização. Revista de política agrícola, 2020.

Frederico, S., As cidades do agronegócio na fronteira agrícola moderna brasileira. Caderno Prudentino de Geografia, 2011.

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